Para quem não sabe, sou Caminha pelo lado materno e Soares pelo paterno. E o que isso tem a ver com os 500 anos do Brasil? Nada ou alguma coisa. Alguma coisa, se considerarmos que o celebrante da primeira missa no Brasil foi Frei Henrique Soares, de Coimbra, e o escrivão da frota, o homem da célebre carta inaugural, Pero Vaz de Caminha. Logo, também sou culpado, pelos dois lados, por tudo o que vem acontecendo nesta pátria amada, salve, salve, desde que um dos dois (ou os dois, não se saberá nunca), junto com o restante da tripulação das 13 caravelas, andaram se metendo com as nativas e deu nessa zoeira que é a raça brasileira, misturada depois com as fortes e bonitas negras vindas da África.
Tinha que acabar em samba, em futebol (dizem até que os índios antecederam os ingleses na criação do futebol, chutando caveiras e cocos no meio de seus jogos tribais), no rebolado das mulheres (para se livrarem dos beliscões e açoites) e no banzo (tristeza) que muita gente ainda tem e nem prozac resolve.
Este país comemora os seus 500 anos em meio a uma onda de denúncias, investigações e um jornalismo sensacionalista, comandado, em razoável parte, por empresas que têm concessões vencidas ou questionadas e algumas devem milhões ao governo e sempre servem aos dirigentes de plantão, independente de regime, partidos ou atestados de honestidade. Acrescente-se que são hábeis em desviar focos, direcionando a atenção do povo para o que agrada a quem lhe interessa. Enquanto os dirigentes mandam, eles elogiam, escamoteiam, defendem, afagam e cortejam. Na hora em que farejam a estrela caindo são os primeiros a fazer uma espécie de lobotomia e o passado é apagado, como se o povo não tivesse memória.
Quando se comemora os 500 anos constata-se estarrecido – só para citar um exemplo- que o governo já emprestou R$ 2,4 bilhões às empresas de telecomunicações privatizadas. E não fica só nisso; pode emprestar mais R$ 7 bilhões em breve. O total das vendas foi de R$ 22 bilhões. Se emprestar 9,4 bilhões, os grupos compradores terão recebido 42% do total licitado. Ora, se o governo vendeu para se livrar de problemas (?), como ajudar, se todo santo dia pede dinheiro emprestado aos bancos? Além disso, o valor pago como ágio (condição básica para vencer a licitação) ,na ocasião das compras das teles, poderá ser abatido do imposto de renda a pagar.
Faz parte ainda da festa entender que os bancos têm no governo a maior fonte de receita: segura, não discute preço e sempre quer mais. Se o governo não tem dinheiro, reclama que não pode aumentar o mínimo para R$ 180, como é que é tão (neo)liberal em facilitar a vida das grandes empresas que compraram as teles, disputando licitações em que se diziam fortes, financeiramente, e estavam capacitadas a assumir o controle das empresas privatizadas, pagando o ágio que, agora, descontam do imposto de renda?.
Faz mal não, a culpa é minha e dos meus ascendentes portugueses.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/04/2000.

