Segundo qualquer dicionário, a palavra paixão significa sentimento exagerado, afeto violento, sofrimento prolongado e outros que tais. Neste sentido, a paixão de Cristo que, segundo a liturgia cristã, se encerra hoje com o domingo de Páscoa, foi o sofrimento a ele infligido pelos judeus, através de seus sacerdotes, com a passividade de Pôncio Pilatos, que representava o poder dominante de Roma. Roma dominava quase todo o mundo da época, diga-se de passagem.
Tudo isso está na Bíblia, no Novo Testamento, no evangelista João, narrado como se fora uma história com começo, meio e fim. Esse evangelho, certamente, foi o material básico para Mel Gibson montar a estrutura dramática e o roteiro de seu discutido e visto filme “A Paixão de Cristo”. Na verdade, Mel Gibson diz ter se baseado em Mateus, embora, no meu entendimento, esteja despistando. O evangelho de João- que viveu na época de Cristo – parece, se lido apenas com cuidado, um roteiro básico. Basta, por exemplo, observar: “E era a preparação da páscoa, e quase à hora sexta (meio-dia); e disse (Pilatos) aos judeus: Eis aqui o vosso Rei. Mas eles bradaram: tira, tira, crucifica-o. Disse-lhes Pilatos: Hei de crucificar o vosso Rei? Responderam os principais dos sacerdotes (judeus): Não temos rei, senão César (o imperador romano que subjugava a pobre região judaica)”.
Era a covardia do dominado em face da opção dada pelo preposto do poder dominante. Tudo isso está nos capítulos 18 a 21 de João. É só conferir o filme, está exatamente igual. A força da trama urdida por Mel Gibson é tão grande que não se fala muito do ator James Caviezel que interpreta, de modo convincente, o papel de Jesus Cristo em suas doze últimas horas de vida, tampouco se comenta o sóbrio desempenho da atriz Maia Morgenstern que faz uma Maria, a mãe de Jesus, equilibrada e nada piegas.
O que há a reclamar na produção profundamente bem-sucedida de “A Paixão de Cristo” é o exagero na flagelação de Jesus. Para uma psicanalista amiga, tal exagero chegaria às raias do sadomasoquismo. Eu digo que essa tal brutalidade foi o fel do Mel Gibson. Na visão hollywoodiana, certamente esse fel ou a flagelação exacerbada foi o condão para gerar toda a polêmica – prévia e atual – que faz do filme um sucesso de bilheteira em todo o mundo e, ao mesmo tempo, deu aos cristãos, principalmente, oportunidade de revisarem os fundamentos de sua fé, após 2000 anos de história. Algo que persiste com tanta força, merece a atenção de todos, independente do fel do Mel.
A propósito, feliz Páscoa, que vem a ser comemoração anual dos cristãos em memória da ressurreição de Cristo, após a sua paixão.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/04/2004.

