A POESIA DE BARROS PINHO – Jornal O Estado

Dizia Madame de Staël, escritora francesa dos anos oitocentos, que a poesia é a linguagem natural de todos os cultos. Bem mais cedo, Ovídio, vivido no então Império Romando, asseverava que a poesia nasce simples de uma mente serena. O livro “Poemas para orvalhar o outono”, de José Maria Barros Pinho, parece merecer as duas observações acima. Barros Pinho, administrador, professor, político e, acima de tudo, poeta, é uma dessas pessoas diferenciadas em seu jeito incisivo, retraído – quando necessário -, ardente, cálido, prestativo e sabe que veio ao mundo com missões múltiplas. Vejam-no: “o comércio/faz a festa da vitrine/nos olhos dos meninos/o operário/desfila na fila do governo/sob a plácida complacência/na espera eterna/da bondade burocrática/nas ruas/a vida/ é uma máquina”.
A capacidade de síntese é a característica deste registro poético que também não deixa de ser uma crônica, um relato social. Rimbaud, um dos maiores poetas de todos os tempos, afirmava: “Digo que o poeta precisa ser vidente, far-se vidente. O poeta se faz vidente mediante uma longa, imensa e pensada desordem de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele busca a si mesmo, esgota em si todos os venenos, para conservar apenas as quinta-essências. Inefável fartura em que tem necessidade de toda a fé, de toda a força sobre-humana, em que se torna o grande doente dentre todos, o grande criminoso, o grande maldito – e o supremo sábio”.
Tudo o que Rimbaud disse está inscrito na seleção dos setenta poemas de Barros Pinho escolhidos para este livro que o revela por inteiro. As memórias, essas que voltam sem ser chamadas, estão no poema O velho longe do Rio: “meu avô morreu/na chapada da distância/procurando a lua de olhos/vivos no rio o rio mais/longe de sua vontade/as mãos sem carne/ os pés sem perfume/a rastejar fantasmas/na superfície das pedras/o engenho abrigo do tempo/moendo moendo seus ossos/ossos no destino do vento/vento vento outro vento/não o vento de sua terra/hoje passa montado no cavalo/ arco-íris pelos céus e as esporas/ a rasgar as nuvens da chuva”. Belo, contundente.
J. Ortega y Gasset, filósofo espanhol quase contemporâneo, pois morto em 1955, admitia que não se pode dizer que o poeta persiga a verdade, visto que a cria. Assim, tem sido a poesia de Barros Pinho. Gera, metaforicamente, as suas verdades, mostrando ou camuflando as suas dores, fazendo de seus versos sístoles e diástoles. Consegue sintetizar tudo, assim: “o rio encheu/os olhos/do menino/cheio de espanto/a menina/encheu-lhe a vida/de paralelas”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/11/2010

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