Aqui em Fortaleza, ali no Centro Dragão do Mar, reuniram-se, na semana passada, embaixadores, adidos culturais e cônsules de cerca de 30 países para discutir, no Fórum Cultural de Cooperação Internacional, a posição da cultura neste mundo de tantos atentados, guerras e crises econômicas. Tudo isso se deu graças a uma iniciativa do governador Lúcio Alcântara, materializada pela Secretaria de Cultura e secundada pela Sociedade Consular. Foram três dias de muita troca de informações, discussões e entendimento, entre pessoas de línguas, histórias e formações distintas. Tinha gente da Finlândia ao Suriname. Da China à Costa Rica.
Tudo começou com uma demonstração da realidade cearense com palavras, filme, coral, orquestra e a apresentação de uma suíte de “Duas Estações” pelas meninas da Edisca, dirigida pela Dora Andrade. Era o Ceará se pondo a nu, do Cariri ao litoral, mostrando as entranhas, carências e também o seu grande potencial. Nada de sofismas ou humildade disfarçada. Era como se toda a sessão inaugural fosse uma anamnese e tivesse uma mensagem: nós somos assim e assado, mas temos sonhos e capacidade. E o que se viu foi um contrato espontâneo de adesão sendo firmado e visualizado no gestual e aplauso dos estrangeiros que iam absorvendo e se maravilhando com o mostrado.
Depois, vieram as sessões de trabalho. Muito trabalho. Tudo sob a coordenação da Secretária Cláudia Leitão, que soube dar o seu recado de forma certa, altiva e com aprumo. Cada país deu o seu quinhão desvendando e contando a história de sua formação cultural. E o fizeram de modos diversos, como era de esperar. Muitos, a maioria, com graça e estilo, outros, poucos, de forma enfadonha e ultrapassada. O resultado foi profundamente positivo, especialmente graças a uma plateia miscigenada. Intelectuais, professores, estudantes e curiosos do Ceará agregaram-se a diplomatas e deram expressão local a um evento internacional de excelente nível.
Ao fim e ao cabo, o Ceará pode ter saído desse Fórum com uma nova e positiva imagem internacional, mercê da estrutura montada, do jeito simples de ação e da qualidade final das discussões. É preciso apenas que as pessoas nele envolvidas tenham a capacidade de decidir. Ficou clara a percepção de que a cultura não deve e nem pode ser considerada um apêndice, mas um assunto de Estado e, como tal, tratada com prioridade, valorizando as suas manifestações artísticas, acadêmicas, científicas, folclóricas e populares, como política de inclusão social. Os frutos da cultura percorrem caminhos diversos dos tradicionalmente conhecidos, mas podem ser uma âncora importante para a paz e entendimento neste mundo tão desigual e violento.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/03/2004

