Há um ciclo de saber em São Paulo e em Porto Alegre denominado “Fronteiras do Pensamento”. Nele são discutidos faces distintas do conhecimento humano para um público de nível. O curso, na verdade um ciclo de palestras, custa 820 reais por pessoa. Um dos convidados, neste ano, foi o filósofo francês Michel Onfray, que escreveu, entre outros, o livro “Le Crépuscule d’une Idole, l’Afalabulation Freudienne” (O crepúsculo de um ídolo, a fabulação freudiana) que deu elementos para o título para o seu livro “Sem Freud…”.
É preciso deixar claro que a opinião de Onfray faz parte de uma onda antiga – que ora se renova – de negação da herança cultural/científica do grande médico judeu Sigmund Freud. Muita gente vai a um psicanalista por razões diversas e, durante múltiplas sessões de 50 minutos, fala de sua vida e do que a incomoda no presente ou passado. O psicanalista ouve e faz intervenções pontuais.
Para Onfray: “a psicanálise é uma lenda, Freud acredita que a partir de suas introspecções pessoais descobriu a verdade universal do inconsciente”. Há que ser feita, a guisa de esclarecimento, referência de que a psicanálise não é uma profissão reconhecida pelos Conselhos de medicina e de psicologia.
Qualquer profissional de nível superior pode dizer-se psicanalista, a partir de cursos breves ou longos, que fez em uma das muitas correntes que constituem o mundo pós freudiano do estudo da mente. Assim, é preciso cuidado ao escolher alguém a quem se vai falar sobre a vida e a dos que com ela interagem.
Onfray, que tem fama de desmistificador e polêmico, acredita que essa quase-ciência “funciona como uma religião e está na hora de desconstruí-la, como todas as outras religiões”. Colocando a psicanálise como uma religião, ele, pelo menos, alerta que devemos escolher com cuidado os padres-confessores, pastores, gurus rabinos e psicanalistas.
Eles ouvem, em confiança, os problemas existenciais ou de fé dos seguidores de suas crenças e impõem limites às suas condutas. Sempre é bom saber de suas – deles – histórias pessoais, dos seus passados e ouvir opiniões dos que já os conhecem bem, antes de revelar suas dores, humores, amores ou temores.
Estas observações espelham apenas, de forma simplificada, o que li na “Ilustrada” da Folha, de 12 de outubro passado, e ora procuro transmitir aos leitores. Elas não refletem, necessariamente, a minha opinião. A defesa do austríaco famoso Sigmund Freud não precisa ser feita por mim. Ele próprio, no livro “O mal-estar da civilização”, afirma: “contra os ataques é possível se defender: contra o elogio não se pode fazer nada”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/11/2012

