O Brasil tem cerca de 70 milhões de veículos circulando por estradas e vias de discutível qualidade. Neste ano teremos eleições municipais em 5.500 cidades. Eleições para prefeitos/vices e vereadores. Todos, quando eleitos, são bem pagos. Não saiu ainda, de nenhum partido, qualquer menção a programas ou projetos aos problemas básicos das cidades. Só se fala em coligação ou aliança com A ou B, tempo de rádio, televisão, recursos, quem será o cabeça de chapa etc.
Quem quiser ver o Brasil real viaje pelo interior de qualquer Estado. É claro que há exceções, entre as 5.500 cidades, a grande maioria é de causar indignação. As cidades acolhem quase 85% da população total e geram 90% de todos os bens e serviços, as riquezas. Em contrapartida, há deficiências claras nos sistemas de transportes urbanos (metrôs, trens, ônibus, micro-ônibus, táxis, mototáxis) pavimentação inadequada ou insuficiente, pouquíssimas obras com soluções estruturais e sequer, as simples, para circulação segura de bicicletas. Há mortes, diárias, no trânsito pela imprudência de uns e outros. O que funciona bem são os fotos sensores e pardais, os das multas.
O governo reestimula agora a venda de carros encalhados para diminuir a crise, mas não constrói as estradas necessárias e inexistem parquímetros no Brasil e escassos são os edifícios-garagem. Os aeroportos estão com as capacidades de suas gares esgotadas e são ultrapassados física e tecnologicamente. Um exemplo: semana passada, uma grande chuva em Vitória, Espírito Santo, fez ruir parte do teto do aeroporto, exato onde funcionavam os check-ins, assim tudo passou a ser feito manualmente.
Os poucos grandes portos são feudos indecifráveis. Construtoras pujantes são o delta, o alfa e o ômega das questões, especialistas em tudo, independente de partido, seguem incólumes. O Brasil, na contramão do mundo, ainda não usa trens para ligações entre os estados. Na Europa e nos Estados Unidos, isso foi feito no século 19.
O saneamento básico nas cidades é grande gargalo, pois os recursos sempre estão atrasados para pequenas e médias empresas sérias que participam de acirradas licitações e são levadas a desistir de obras, pois não recebem o que produzem, por conta de convênios que emperram e pela descontinuidade de administrações sem entender o processo que deveria ter um plano mestre, independente de interpretações casuísticas.
Sem saneamento, a dengue mostra o descaso e custará caro, muitos morrerão. A leptospirose grassará em meios a valas de lixo e esgoto a céu aberto onde animais e crianças convivem. Isso é desenvolvimento? São Paulo, a maior capital, tem um milhão de pessoas que não usam sequer rede de esgotos.
Na área de telecomunições, serviços de terceira, preços de primeira. O baixo índice de resolutibilidade em banda larga carece de investimentos de 20 bilhões para que o acesso de cada 100 habitantes não patine nos percentuais atuais e atinja a 30%. Sem comunicação, um país não funciona. Precisa para fins escolares, acadêmicos, controles públicos, pesquisas, científicos, empresas e instituições. A comunicação de dados é gêmea do progresso. Só agora, haverá leilão para a rede 4-G, a quarta geração tecnológica.
As concessionárias de energia elétrica desconfiam dos consumidores ao colocarem medidores expostos enfeando as fachadas de empresas, prédios e residências; prestam serviços de baixa qualidade – sempre por terceirizados mal pagos – e não atualizam redes causam blecautes que queimam aparelhos domésticos e industriais. São, paradoxalmente, coniventes com os ocupantes de invasões de áreas públicas e privadas urbanas e rurais, pois permitem ligações sem pedir prova da propriedade ou da locação. Não será hora de reavaliar as concessões?
Logo mais, os marqueteiros de sempre, darão um jeito. Venderão ilusões, tais Mefistófeles comercializarão as próprias almas, se as têm. Aguardem. Os circos vão chegar.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/05/2012.

