Trocamos telefonemas. Tensão constante. Fui apanhá-lo no outro lado da cidade. Manhã alta. Dia de semana, trânsito caótico. Cheguei. Veio de lá com seu jaleco branco bem passado, olhar turvo por trás das lentes espessas, os ralos e gris cabelos da cabeça e bigode mostravam sinais de cuidado. Sabíamos o que iríamos fazer. Falamos do acontecido e o que se poderia tentar. Ouvi dos contatos preliminares, da ambulância e da necessidade de pedir boa assistência. Conseguimos estacionar, entramos no hospital. Direto ao elevador para a UTI, onde ficam os necessitados de tratamento intensivo. Lavamos as mãos, falamos com o médico intensivista, olhamos o quadro clínico no prontuário e nos encaminhamos para o leito. De repente, o homem do jaleco já não era mais médico, o que pastorea almas desesperadas, recomenda moderação, ouve queixumes e medica. Era o filho-menino do pai inerte, mas de face serena, sua cópia em sépia. Quem ali estava deitado, cheio de tubos, cercado de máquinas, era o velho “pairmão” amado e reclamão. O coma e o respirar por instrumentos obrigava a pensar na sua vida de atleta, jogador de futebol que fora, da lida em livraria para sustentar a família e das andanças etílico-sociais nas redondezas. A realidade se confundia com o tom monocórdio dos reguladores da vida a se esvair. E tivemos, sem trocar palavras, ciência de que a Caetana rondava e cobrava os dividendos do tempo. Pouco havia a fazer. Cumpri o estabelecido e coloquei o homem de jaleco em contato com a direção que prometeu cuidados maiores. Depois, tal como subimos, baixamos à vida espremida entre buzinas, camelôs, engarrafamentos e o calor abrasador do sol zenital. E, silentes, tivemos noção do provável infortúnio. A volta foi mais lenta e o jaleco, agora amarfanhado, parecia um cobertor a agasalhar o homem-menino que saia, pouco a pouco, do transe e se reencontrava com o ceticismo natural dos seguidores de Hipócrates. Parei. Ele desceu, acendeu o cigarro, abriu o portão e, penso, foi chorar sozinho. O resto é silêncio, como queria um certo William.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/12/2009.

