Estava ali parado. Sentara na praça de sua infância, mas não era a mesma. Haviam-na mudado. Ficaram o nome e a memória. A propósito de revitalizá-la tinham copiado um projeto estrangeiro e ela era apenas um simulacro de sua arquitetura. Ali não era mais o seu lugar e, paradoxalmente, o era pelas lembranças invocadas. A primeira delas e a mais forte era a da festa popular após a vitória da Copa do Mundo de Futebol em 29 de junho de 1958. Nessa tarde havia feito uma promessa: se o Brasil ganhasse, não vibraria. Iria apenas ver a alegria dos outros. Chegara à praça com a mão esquerda metida no bolso da calça de brim afagando as contas de um terço aliviando a sua fé dúbia, mas a cobrar respeito à promessa feita. Agora, lustros passados, sentara na mesma posição daquela tarde, mas o banco era outro e os transeuntes, estranhos. Pensava com os seus botões e admitia se encontrar entre a lembrança do passado e o tédio daquele involuntário passeio em procura de sua alma. Agora, está preocupado com o tempo dissipado desde aquela afastada tarde do dia de São Pedro. Em meio ao barulho do ir e vir das pessoas, camelôs em profusão, sua alma se investe de silêncio e faz girar a ampulheta do tempo, grão a grão, a se esvair em sua existência sem grande expressão. A época do encantamento havia tomado outro rumo. Não sabia bem a razão de estar ali, em dia da semana, ao cair da tarde. Vivia um momento trafegando entre a paz ilusória e o vazio da solidão imposta pela aposentadoria e a separação de corpos da mulher, levando, de roldão, os filhos. Na sua cabeça era 1958 outra vez e se sentia o menino refugiado no silêncio não compartilhado. O futuro era a porta da vida, pensara naquela tarde festiva quando todos se rejubilavam pela vitória na Suécia. Agora, já estava no futuro e se lembrava do seu ego passado, o mesmo a acompanhá-lo até agora e, dentro dele, voltara à praça. Ego envelhece ou permanece tal qual era? Não sabia a resposta e isso pouco importava, pois aquilo não era uma equação matemática, mas existencial onde os números contam pouco e valem as pessoas. Limpava o silêncio do passado com as lembranças armazenadas em seu cantil de lágrimas quando o peito se fez em fogo por uma bala perdida com dores ziguezagueadas. Tombou e ouviu o cinza do silêncio.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/05/2009.

