ALEXANDRE VIDAL PORTO E SÉRGIO Y – Jornal O Estado

Alexandre Vidal Porto-AVP é paulista, com origem materna cearense. Sua mãe é a artista plástica cearense Emília Vidal Porto. AVP morou algum tempo em Fortaleza, onde fez Direito na Unifor. Depois, passou no exame cobiçado do Ministério das Relações Exteriores, o Instituto Rio Branco. Fez-se diplomata, andou pelo mundo, Ocidente e Oriente, com opiniões próprias e não se esquivou de aprender outros idiomas.
É indiscutível a oportunidade que o Itamaraty propicia aos seus jovens concludentes. Passam a ver o mundo com os olhos da geopolítica, mas incluem na mirada o que trazem de sua ascendência e da sua capacidade analítica dos fatos que presenciam ou o que envolve a comunidade diplomática em cada sítio em que residem e trabalhem. E quem sabe critica, pede explicações. Não contente com a sua peregrinação profissional, AVP foi mourejar na Harvard University, onde concluiu o mestrado em Direito. Tornou-se dissidente na atual fase da diplomacia brasileira e o demonstrou em artigos publicados na Folha de S. Paulo. Mas, isso é outra história.
A formação do romancista AVP não é a ficção erudita que Johann Wolfgang von Goethe concebeu para “Os Anos de aprendizado de Wilheim Meister”, uma novela de formação escrita no final do Século XVIII. Alexandre Porto dista mais de dois séculos de Wilheim Meister e é pessoa real, inquieta, com ideias próprias, vanguardista, agora na jovem maturidade dos seus cinquenta anos.
“Sergio Y. Vai à América” não é a primeira obra de AVP. Uma das epígrafes do livro é atribuída a Fernando Pessoa, em saudação a Walt Whitman: “E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas/De mãos dadas, Walt, dançando o universo na alma”.
Como se sabe, Walt Whitman é um dos grandes poetas americanos, reverenciado por muitos. O seu grande livro de poesia, “Leaves of Grass”, foi sendo construindo ao longo da vida até se tornar a sua odisseia particular, com versos livres, contando a história do seu tempo, as suas ideias libertárias, as suas influências literárias, do seu modo e jeito. Ao cabo, contém 71 poemas.
“Sergio Y. Vai à América”, romance denso, bem urdido, e nem por tal razão tedioso, conta a história de Sérgio Y. na versão de seu ex-psiquiatra/ psicanalista. Sérgio era confuso, como quase todos os jovens de família de bens, dotada. Na análise, procurava explicações sempre com base em aspectos íntimos não despontados, pois não havia se despegado da família.
Um dia, sem explicações e reticente, Sérgio deixa a análise e segue a vida. Como se soube depois, por conta e alvitre do seu ex-analista, foi para Nova Iorque e se descobre outra pessoa, nova identidade e sexualidade, afeiçoada à profissão de “chef” que descobrira em sua travessia. José Castello, crítico literário, expende: “O romance é contado com contenção e comedimento… O leitor não consegue largar o livro que tem nas mãos”.
O resto fica para quem quiser ler esse bom livro, editado pela Companhia das Letras, que bem refere o que muitas pessoas ainda estão por entender. Algumas famílias, menos ainda. Psicanalistas, inclusive.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/03/2016

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