A novela “América”, que não assisto ou vou assistir, mas sobre a qual ouço comentários e leio releases, notícias e sinopses, mostra e mostrará, entre rodeios, tapas, fugas e beijos, a crueza da luta de imigrantes ilegais brasileiros, via fronteira mexicana, para atingir os Estados Unidos, “fazer a América” e conseguir “ser gente”. Tudo por falta de oportunidade por aqui. Verdade e mentira. É verdade que milhares de brasileiros tentam, com risco de vida, fazer isso, desde sempre.
É mentira que o Brasil não seja um país de oportunidades. Os grandes problemas do Brasil são a desigualdade na distribuição de renda, na formação educacional ou cultural das pessoas. Os que conseguem estudar, de verdade, têm oportunidade por aqui. A regra vigente há tempos neste país, e consolidada neste início de século XXI, é a de que só os de ponta obterão acesso às riquezas. Não haverá mais lugar para os mais ou menos ou para os que, por falta de oportunidade, não tiveram boa ou nenhuma formação, sem falar nas exceções. Daí o êxodo. Ele é o retrato de todos nós, ricos ou pobres, malditos ou miseráveis.
Mas, estava eu no Palácio do Itamaraty, em Brasília, em julho de 2002, quando os presidentes Fernando Henrique e Vicente Fox assinaram o Acordo de Complementação Econômica entre o Brasil e o México. Por esse acordo, os dois países decidiram a redução ou a eliminação de tarifas de 800 bens ou produtos. Por coincidência ou não, bem perto de mim estava atento o empresário mexicano Carlos Slim, hoje um grande investidor no Brasil, dono, entre outras empresas, da antiga estatal Embratel. A tudo ouviam as embaixadoras do México no Brasil, Cecília Soto e a dos Estados Unidos, Donna Hrinak, hoje, casada com um brasileiro e atuando como consultora de investimentos. Em seguida, em conversa informal, falávamos que aquele instante estabelecia um novo marco na relação entre os dois países. Dito e feito.
Hoje o México é um dos grandes mercados brasileiros. Basta dizer que, de 1998 para 2004 as exportações brasileiras para lá cresceram 300%, com ênfase nos três últimos anos. Por outro lado, as exportações mexicanas para o Brasil deram um pulo. Só em 2004 cresceram 34% e isso é bom para brasileiros e mexicanos, mas em nenhum dos dois lados a desigualdade tem diminuído. E isso é ruim, também para os dois.
Estamos, Brasil e México, prestes a virar países ricos, desde que saibamos superar desafios nas relações internacionais. Podem crer. É questão de poucas décadas. Mas será, se acontecer, uma riqueza talvez sem alegria, pois ainda calcada na desigualdade, que esperávamos ver diminuída. É ela que dá origem ao sucesso de novelas como “América” que, além de levantar o problema, queira Deus não sirva de incentivo para os muitos que não têm vez e voz por aqui.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/04/2005.

