Leitores, não estou me repetindo. Concluo o raciocínio da semana passada. Nesta terça, passei parte da noite vendo estações de televisão e jornais, mundo afora. Decidia-se a eleição americana de 2012 e quem chegasse a 270 votos no Colégio Eleitoral seria o novo presidente. O Colégio Eleitoral americano é o somatório dos votos ponderados para o vencedor de cada estado. Os votos de quem perde em um estado são zerados no Colégio Eleitoral. Assim, quanto maiores forem os estados que o candidato ganhar, mais votos terá na decisão final.
O fato é que deu Barack Hussein Obama, o negro ex-professor de Harvard, casado com mulher da mesma tez, de elevada formação acadêmica, ganhou do bilionário Mitt Romney. O povo de lá, como o de cá, quer direitos assegurados para a saúde, proteção social aos mais pobres e sentir-se parte de um projeto de inclusão que já se faz tarde.
Cheguei, ainda estudante, a Nova Iorque e o ônibus que nos levava à Columbia University mostrava o Harlem, área em que os negros viviam segregados. Passaram-se décadas para que um negro, mesmo qualificado, ousasse disputar a presidência da América. Esse negro tinha inclusive, o nefando sobrenome Hussein, entre o Barack e o Obama. Principalmente, após o 11 de Setembro de 2001, sem falar que Obama soa com Osama.
Audácia, competência, sorte, destino, muita luta, ou seja lá o for, levaram-no a sentar na cadeira que foi de Abraham Lincoln, o primeiro presidente a lutar contra a segregação. Esta semana, repetiu a dose e venceu.
A palavra negro, que usei várias vezes neste texto, mostra um laivo de preconceito. Como a dizer, você é diferente de mim. O mesmo acontece por lá com “hispânicos”, todos os que nasceram abaixo do Rio Grande, este divisor que mostra a enorme fronteira com o México. Explico: essas terras são fruto de guerra de conquista americana em que tomaram à bala as áreas que hoje configuram os estados da California, Nevada, Texas e Utah. E parte do Arizona, Colorado e Wyoming.
Ao cabo, em 1848, foi assinado o Tratado Guadalupe Hidalgo,
através do qual os EUA “compraram”, por quinze milhões de dólares, uma área equivalente à metade do antigo território do México. Tudo foi fruto do governo de Thomas Jefferson que acreditava ser a América possuidora de um “Destino Manifesto”, através do qual poderia expandir-se e ficar de cara larga para o Oceano Pacífico.
Hoje, a América deve repensar as consequências dos seus desejos, ainda manifestos, de ser sempre a maior. O que ela precisa é ser mais justa com todos, primeiro com os seus cidadãos, independente da cor da pele e da situação financeira. Obama soube usar o mote “Yes, we can” (Sim, nós podemos) para dar esperança aos pobres. Agora, nesta segunda vez, usou “Forward América”, algo como Adiante América. Ir adiante, sim, mas, primeiro, acertar as contas com o passado. Um lembrete a Obama e a todos: a China, não por acaso, mudou o comando do governo nesta semana.
João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/11/2012.

