“Fazer amizade fica difícil à medida que os anos passam, mas é possível abrir o círculo recriando, em qualquer idade, aquela antiga disposição para investir em gente nova”. O texto acima é de Amanda Lourenço, colaboradora do caderno “Equilíbrio”, da
Folha de SP. A palavra nova não se refere à idade, mas ao desconhecido, ao inédito, ao buscado. Amanda usa ainda duas impressões destacadas. A do psicanalista Francisco Daudt refere que “é muito raro que amigos de infância mantenham afinidades na vida adulta, mas intimidades antigas também podem ser muito confortáveis”.
Outro ponto de vista é o do antropólogo Mauro Koury, paraibano, apesar do sobrenome árabe. Koury diz que há uma ação ambígua entre o plano de conquista profissional, que exige foco em si mesmo, e a necessidade de compartilhamento social.
Tudo isso me vem ao constatar a atitude de dois amigos do jornalista Lustosa da Costa. Juarez Leitão e Edmo Linhares estão instando amigos a escrever sobre o amigo LC, recentemente transformado em cinzas no Rio Acaraú. Eles não poderão mais agradar a quem se foi, mas criaram uma alçada para mitigar o vazio que surge quando alguém desaparece de nossa vida. E não é preciso morrer para desaparecer, bastam o afastamento e o comodismo, os dois elos para que uma amizade vá para o espaço. Quase ninguém tem a coragem de dizer: eu sinto saudades de você. Tenho prazer em encontrá-lo.
Todos têm saudades de uma ou mais pessoas, e nos deixamos levar pelo afastamento físico, sejam alguns quilômetros ou milhares. O comodismo, decorrente do trabalho ou da preguiça, nos desfoca dos encontros que poderiam acontecer em um restaurante, em uma caminhada, em um telefonema e até por e-mail, que nos aproxima – às vezes de mentira – de estranhos. A procura dos sites de relacionamentos virtuais é uma demonstração da carência humana em apagar os desencontros havidos e aceitar o desafio do novo. Entretanto, nada há melhor do que a conversa. Aquela em que ficamos frente a frente e sabemos, pela fisionomia, pela respiração, pelo gestual e até pelos odores, se somos ou não aceitos, queridos ou, em contrapartida, se aquela pessoa nada tem a ver conosco.
Theodor Adorno, filósofo alemão do século vencido, acredita que existe um critério quase infalível para determinar se alguém é realmente seu amigo: o modo como refere opiniões agressivas ou descorteses a seu respeito. Filosofia à parte, acredito em amizade. Amigos há. Eles se encontram na adversidade, na queixa não referida, nos botecos, nos aeroportos, nos esbarros, ao descobrir nossos achaques e entender os nossos silêncios. E falas.
João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/10/2012.

