AMIGOS NA TARDE – Diário do Nordeste

Uma dúzia de mini-louras são o bouquet que entrego ao Airton, sempre esnobando os tintos estrangeirados, oferecidos com prodigalidade pelos cobres não poupados dos Cavianele. Chego. Abraço a todos e vejo que a mesa está posta com esmero para o repasto tardio por quem faz do receber um aceno fraterno à benquerença e ao encontro de almas, eventualmente irmãs.
Lá abaixo o mar orvalha as pedras e o sol não está forte, como a se espreguiçar entre nimbos que embranquecem o firmamento azul. Um barco perdido vai na direção do seu trapiche, deixando o caís para os mais fortes, os de cascos de aço com limo coberto e que vagam pelo mundo.
Chistes, troças, leitura extemporânea de uma crônica para mexer com o Airton e o telefone toca. Era a descendência, trocando afagos. O aroma dos condimentos vem da cozinha, mas tenho que sair. Que pena, agora que os decibéis etílicos dos amigos estão no ponto do Totonho perpetuá-los em aquarela e o Levy ficar ruminando o seu quipá imaginário, para contar os gastos da casa que poderiam ser amealhados para um futuro que não se sabe existir, pois quando vem já é presente. E renovo o meu olhar para o oceano e miro o edifício onde mora uma filha querida. Descubro-me em dívida com o ir e vir das ondas, empurradas pela energia superior que a física não consegue explicar, em teorias ou fórmulas. Do lado direito, ouço o trinar de um pássaro aprisionado, mas livre, incomodado com a zoada que fazemos, enquanto os cristais à mesa aguardam a conspurcação dos tintos. Chamo o elevador, esta máquina que, por seus espelhos, transforma em vizinhos os que se querem isolados. E todos fingem fazer alguma coisa para não aprofundar conversas, quiçá sentimentos. E o chão aparece. Ligo o carro e sinto-me só na estreita rua deserta. Utilizo a metáfora da paz na rua que tomo à direita e vejo enfileirados uma miríade de prédios, guardiões de segredos, dores, alegrias e amores. É meio da tarde e o acelerador do carro trasmuta-me no pai que sou, mesmo que queira, vez por outra, bancar o menino levado que nunca fui com maestria.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/09/2007.

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