AMOR EM ALEMÃO – Jornal O Estado

Há mais de duas décadas, em meio ao espanto de sua família, uma jovem socióloga resolvia abandonar seu emprego certo e ir para a Alemanha. Iria fazer uma complementação de estudos, um mestrado, coisas assim. Quis a vida que ela conhecesse um também jovem médico alemão que aqui concluía uma das fases de seu curso. Conheceram-se, encantaram-se, mas cada um tinha uma vida a cumprir em continentes diferentes. E foi aí que ela consolidou seus planos e teve a coragem de dizer: eu vou. E foi. Em lá chegando, tudo era estranho, diferente e o pouco do alemão que sabia não dava para quase nada. Resolveu, antes de qualquer curso profissional, melhorar sua conversação e escrita na língua de Goethe que já dissera o óbvio, em ‘As Afinidades Eletivas’: “Toda atração é recíproca”. Enquanto isso, o amor urdia e a atração crescia. Ela foi pedida em casamento com a presença da família do candidato. Comunicou o fato, com alegria, aos pais que lhes responderam que isso não valia para eles: pedido de casamento e casamento, só aqui, debaixo dos seus olhos e na lei brasileira. E, além dos pais, havia uma tia que dela cuidara por toda a vida e se sentia abandonada e triste. Enfim, vieram, casaram no civil e religioso, solteiros que eram, cortaram o bolo, foram abençoados, bateram fotos, ganharam presentes e, mais que de repente, voltaram para a realidade fria da Alemanha. E aí já não eram mais ela e ele, era um casal, com compromissos com a vida, mudando de cidades e à procura de casa. Suaram, trabalharam, cada um na sua faina, e conseguiram comprar a de seus sonhos, cercada de árvores e flores, em uma rua pequena, aquietada e charmosa de uma cidade que ainda tem bonde e os vizinhos se conhecem. E tiveram que ir duas vezes à maternidade e de lá saíram com duas filhas bonitas, misturas de sangues e raças, nascidas na germanidade sob o credo de Bismarck: “Nós alemães tememos a Deus, mas a nada mais no mundo”. E essas filhas foram crescendo sadias, estudiosas e felizes. Hoje, são duas jovens em processo de definição profissional. Multilíngues, cidadãs do mundo, cantoras amadoras e, ciosas também de sua brasilidade, adeptas e intérpretes da bossa nova. E, para confirmar essa brasilidade, já vieram mais de 20 vezes ao Brasil e aqui se reabastecem de alegria para viver o duro e competitivo mundo real que o século XXI apresenta a todos os jovens da Europa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/02/2009.

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