Eu não sou chegado a novelas, mas não posso ignorar o sucesso de Ana Paula Arósio, uma jovem de 21 anos que, de repente, começou a aparecer na mídia e passou a ser considerada uma das mulheres brasileiras mais bonitas do século.
O sucesso leva, muitas vezes, a faturamentos extras em publicidade, fotos, desfiles. festas e merchandising. De repente, a Ana em questão ficou “rica” e passou a ser o xodó do Brasil como já tantas outras foram.
Esse exemplo pode dar a falsa ideia de que é fácil atingir o sucesso. Basta uma cara e um corpo bonitos, um pouco de talento e muita sorte. Não é bem assim. A sorte pode até ajudar, mas ela tem muitos a quem atender e é extremamente volúvel.
Ninguém tem bola de cristal para saber do futuro, mas há uma receita quase certa para o sucesso em qualquer área da atividade humana: competência, persistência, responsabilidade e profissionalismo. Quantos atores e atrizes já se acharam o máximo e hoje, passados poucos anos, se contentam em fazer papéis secundários em novelas e filmes com salários que mal dão para dividir um apartamento de sala e quarto.
Há uma artista americana por quem tenho a maior admiração: Meryl Streep. Não é bonita, não tem esse charme todo, mas é uma atriz competente, responsável e altamente profissional. E isso não foi construído em um conto de fadas, ela se preparou. Estudou no Vassar College (uma faculdade charmosa que conheço para mulheres) e, após isso, fez o mestrado em dramaturgia na Universidade de Yale. Resumindo: criou uma bagagem intelectual e foi à luta com os cabelos tingidos de louro, seu nariz fora dos padrões estéticos e se fez protagonista em 1978 do filme “O franco atirador”.
Passados mais de 20 anos e quase 30 filmes depois (quem não lembra, por exemplo, de Kramer vs. Kramer, A Escolha de Sofia e Os Dálmatas), ela continua dando o mesmo duro da época em que caçava trabalho. Com 47 anos, ela já ganhou dois Oscars e um Emmy.
Não se pode comparar as trajetórias de Ana Paula Arósio e Meryl Streep. Uma está no orgasmo da glória inicial e a outra sedimenta a sua saga de formiga como se fora uma trabalhadora intelectual e não um objeto do desejo.
O que pretendo passar para alguns poucos jovens leitores é que o talento é importante em qualquer profissão. Uma boa aparência ajuda bastante, a sorte pode fazer diferença, mas sem base intelectual, sem profissionalismo e a essência do conhecimento, ninguém chega a lugar nenhum.No máximo, ficará olhando para a efêmera glória que se esvai como se fora um comprimido efervescente. Como já disse alguém: “uma rosa não pode nascer de uma cebola”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/02/2000.

