Reconhecemos ser o avião meio de transporte seguro. Igualmente, admitimos que, para serem seguros, os aviões devem apresentar boa manutenção, pilotos capazes e com razoável estabilidade emocional. O acidente do voo da Vasp – que se chocou, em 1982, com a serra da Aratanha – no procedimento de aterragem para Fortaleza, pode ter sido provocado por desconfortos emocionais do comandante que, em grave crise existencial, cometeu falha primária matando 137 pessoas. Recentemente, levantou-se dúvida sobre a competência do copiloto do voo Rio-Paris da Air France para lutar contra a emergência eclodida e causado, em 2009, a precipitação da aeronave no oceano Atlântico vitimando 228 pessoas. Como se sabe, o comandante estava em repouso e, quando foi acordado, não houve tempo de reverter a situação.
Há alguns anos, em longo voo para a Ásia, conversei com o comandante – que acabara de “repousar” – e, em seguida, voltaria para a etapa final. Ele me disse que esse repouso é relativo, pois, para dormir por poucas horas, seria preciso desligar de tudo. Um comandante, além das preocupações profissionais, tem família e, consequentemente, problemas com mulher, filhos, financeiros, saúde etc. Essa conversa franca me faz agora escrever sobre o assunto. Recentemente, um avião russo Tupolev-134, caiu no procedimento de descolagem(take-off) do solo com a morte de uma famosa equipe de hóquei sobre patins. Agora, o Comitê Russo de Aviação informa que a queda ocorreu por erro da tripulação e, o mais grave, o piloto “estaria embriagado”.
A partir desses fatos indago por que não haver mais rigor pela Anac no controle, em terra, do estado físico dos tripulantes? Simples bafômetros e uma picada para verificação de uso de drogas estupefacientes em rápidos exames de sangue poderiam evitar, antes dos voos, quem sabe, grandes ou pequenos acidentes. Pilotos, como todas as pessoas, têm problemas e podem usar a ingestão de álcool e/ou drogas como linimento a seus males reais ou imaginários. Não seria desrespeito ao piloto, mas a confirmação da sua completa sanidade para a importante tarefa de transportar centenas de pessoas. Não falo em exames periódicos. Sugiro exames diários, antes dos voos. Milhões de passageiros diários agradecerão.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/09/2011

