ANALISTA OU MÉDICO?

A palavra psicossomática é pré-freudiana. Foi utilizada pela primeira vez por Helmhotz, em 1818. Ora, se já há quase dois séculos se conhece esse vocábulo, por qual razão não há um consenso sobre o que realmente significa?
Sendo simplista, bastaria darmos uma olhada no Dicionário do Aurélio: “Psicossomático (De psic.(o)+ somático. Adj.1. Pertencente ou relativo, simultaneamente aos domínios orgânico e psíquico. 2.Diz-se das perturbações ou lesões orgânicas produzidas por influências psíquicas (emoções, desejos, medo etc).” A úlcera gástrica é, por exemplo, muitas vezes, uma lesão psicossomática. Seria simples.
Ocorre que nada na vida é simples, por sermos complexos, apesar de singulares, e isso nos leva a entender, na nossa visão de eternos e curiosos estudantes, que muitos já tentaram conceituá-la, defini-la, metodizá-la, mas como há correntes que pensam de uma forma e outras que se lhe opõem, ficamos tateando para descobrir a verdadeira essência dos conceitos psicossomáticos.
Permitimo-nos, pois, dizer que a psicanálise teve – e tem – uma contribuição muito grande a oferecer na área do tratamento psicossomático, a partir da sua ação como método terapêutico das neuroses, da investigação da personalidade, com resultados que propiciaram melhorar os acompanhamentos psicológicos, do uso da psicologia em função do inconsciente (o que enseja interpretar sintomas físicos) e, finalmente, do estudo das relações de objeto, cuja forma transferência-contransferência tem mostrado soluções para as questões entre paciente e analista.
Poder-se-ia dizer que tudo isso seria, em sentido amplo, o conceito de psicossomática. Ou não seria?
Abram Eksterman, in Medicina Psicossomática no Brasil, considera que ela é “uma nova visão da Patologia e da Terapêutica, tornando possível o axioma antropológico do objetivo médico”. Vê-se, aí uma condição restritiva, já que só o médico teria esse objetivo. Por qual razão, indagam os outros psicanalistas?
Muitos profissionais não médicos, que a cada dia aumentam, questionam essa restrição e dizem ser preciso não confundir psicanalista com psiquiatra. A psicanálise, como todos sabem, é um método terapêutico que mexe com o inconsciente para curar desordens nervosas ou neuroses. A psiquiatria cuida das doenças mentais em geral.
Afirmam os não médicos que o psicanalista tem um foco único e o psiquiatra seria um generalista das doenças mentais. Um amigo psiquiatra que prefere ser chamado de psicoterapeuta, rebate e diz que psicanalista não cura, apenas identifica o mal ou males. Segundo ele, a interação bio-psico-social é quem resolve, de verdade.
Por outro, os psicanalistas não médicos acreditam ter formação e competência para cuidar das neuroses, inclusive de médicos, sem precisar de drogas, mas usando a ciência, arte e a técnica que aprenderam.
Brigas à parte, é preciso que cada paciente e a sua família saibam exatamente o que procuram e quem encontram, pois como se diz “de médico e de louco, todos temos um pouco”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/06/2001.

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