Acasos acontecem? Justo no instante em que pretendo sair, ocupado e apreensivo, ponho meus olhos (não me liberto do vício de ler até nessas ocasiões) em texto de Jorge Medauar: “tanto entendo um gemido de criança como o soluçar oculto de um avô”. Do mesmo Medauar, como por magia, leio em seguida: “Bem sei que por misteriosos laços, minha vida na tua está contida. E quando me descubro nos teus traços, quero que tudo em mim renasça e viva”.
Deus sabe que foi assim. Entre o banho corrido e a saída para o hospital, eis que me deparo, sem querer, com esses textos do escritor consagrado Jorge Medauar. Não procurei, não pedi, não pesquisei. Eles vieram ter às minhas mãos, exato naquele instante, talvez por uma fada madrinha, acolitada pelo acaso.
Foi precedido e acompanhado pelo eco do que li, que me dirigi, banhado e de olhos brilhando, ao hospital. Como se o mundo não tivesse pressa, fico preso em um engarrafamento e me contento em pensar e orar sem orações, se é que tenho direito, por Alessandra, minha filha primeira, que vai parir pela primeira vez. Seria um parto normal, mas, decorrido o prazo, não houve a dilatação e o tempo urge.
É começo de noite, céu estrelado e corre uma brisa junto ao mar. O engarrafamento persiste. Enquanto os carros buzinam, como se dissessem: “tem alguém com pressa aqui, deixem passar”, lembro do dia 24 de setembro de 1971 quando Alexa veio ao mundo com seus olhos miúdos, feições finas e bonitas, para dar luz à minha vida. Pois hoje, tantos setembros passados, lá vai de novo, Alessandra, colocar mais um pouco de luz em meu caminho.
Saio do engarrafamento (era um carro de resgate de bombeiros) e consigo chegar, a tempo, ao hospital. Quarto repleto: mãe, irmãs, marido com sua família, e amigas. Todos, em um tagarelar nervoso, próprio dessas ocasiões.
Ela, a futura mãe, está tranquila, bonita com seus fartos cabelos soltos e com um sorriso especial, devolve o meu beijo e responde ao meu abraço, como a dizer: vai dar tudo bem. E lá se vai ela de maca acompanhada pelo séquito da afetividade e eu me quedo sozinho no quarto que lhe dará o atestado de mãe. Corro os olhos pelo quarto e sorrio vendo que trouxeram o aparato que conheço tão bem.
Não conto os minutos e, de repente, lá vem Ângela, a neta tão esperada, ainda nas mãos do pediatra. Não me rendo aos carões, e mesmo com a fé que não tenho de todo, faço um sinal da cruz em sua testa. Quero lhe dar as boas vindas a este mundo e palavras não fazem sentido. Um gesto, sim.
Mãe e filha estão nos braços uma da outra. Agora, todos riem, alegres, filmando e fotografando. A anestesia fez sua parte e Alessandra diz: “quero ter todos com cesária”. É uma definição de futuro. E eu, lá dentro do que tenho de mais profundo, misturo graças e sorrisos ao “soluçar oculto de um avô”. Deus te abençoe, Ângela.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/05/2001.

