ANJOS GUERREANDO – Diário do Nordeste

Fui convidado pelas irmãs Ana e Eliana Matos para o lançamento de romance póstumo de seu irmão, Alcides Matos, de cuja família sou amigo. Na verdade, o Dedé, como o o chamavam, era dos que vieram ao mundo com o espírito curioso, o olhar crítico, o silêncio sarcástico e a verve dos que (des)aprenderam a ser gente comum. Aprestou-se no Colégio Cearense e daí para o Colégio Naval, em Angra dos Reis. Descobriu que o mar não era a sua praia, pois coturnos dão calos e tampouco batia continência. E aí se fez redator de televisão, formou-se em direito e, em mais um concurso vencido, entrou para a Justiça Federal. Mas, justiça seja feita, Dedé gostava mesmo era de ler, estudar música no Conservatório Alberto Nepomuceno, assuntar bares e viajar.
Esses atributos o faziam distinto dos que não veem os cultos como normais. Assim, o seu livro “Que anjos são esses que andam guerreando”, ficciona a realidade que, no dizer da professora Eliana Matos: são “histórias que se abrem e se encerram em cada capítulo, que se encadeiam entre si, num elo simbólico como poucos encontrados no gênero romance, até porque, além do respeito que o autor mantém pelos vínculos afetivos entre os seus personagens, ele tem total domínio de seu estilo… é a questão existencial do autor posta em romance em que várias vozes se fazem ouvir, cada uma com sua trajetória e desfechos traçados a filigrana. Afinal, como diz Jorge L. Borges: ‘son formas de felicidade, no objeto de juicio’”.Na Livraria Cultura, reencontro parte dos Matos, do branco sobrado da Assunção. Alegrou-me a ponto de imaginar que Alcides estava olhando enlevado para todos.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/11/2012.

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