ANO NOVO, NÓS, FILAS E COTAS – Jornal O Estado

O ano vai ficar novo e nós seremos os mesmos? Desataremos os nós? O Brasil deu uma pequena repaginada – ainda sem versão final – em seus costumes no ano de 2012. Neste tempo de fim de ano cada pessoa tem direito a planos pessoais para o futuro. O futuro é depois do hoje. Eu gostaria, portanto, caro leitor, fosse acrescentado mais um item em seus projetos de vida. Adote um princípio consagrado na maior parte do planeta: ficar em fila. Nada de ser careta ou moralista. Não ficar em fila mostra pouca educação, incapacidade de obedecer a regras não simpáticas e achar-se com mais direito que os outros. Ficar em fila é questão de educação.
E por falar nisso, há ainda muita coisa por fazer no Brasil. Por exemplo, a péssima educação -ou instrução- nos coloca em 84º. lugar na fila do mundo, no campo do conhecimento. No censo atual (2010) do IBGE há registro de apenas 7,9% dos brasileiros com curso superior completo. No Nordeste, esse percentual cai para 2,3%. Se verificarmos o número de analfabetos maiores de 15 anos, chegamos a 13% ou 26 milhões de gente quase surda e cega para ouvir, ler e entender algo complexo. A informação, a educação, a leitura e o conhecimento aclaram as ideias e nos transformam em pessoas críticas ajuizando fatos com menor propensão de erro.
Estudamos quase nada, lemos pouco e não nos preparamos para as guinadas e os embates do mundo. Ele está girando em ciclos cada vez menores por conta do avanço tecnológico e da Web. Repito, 26 Milhões de compatrícios não sabem ler, escrever ou sequer garatujar o nome na carteira de trabalho. A educação, direito fundamental da pessoa, ainda não contempla, em nosso país, um arco significativo. É privilégio.
Entretanto, surgiu há algum tempo a ideia das cotas (por critérios sociais e raciais; e para alunos de escola pública) já em processo de consolidação e alguns milhares estão conseguindo, nesse caso, “furar a fila” do atraso para entrar na universidade pública e gratuita. Paradoxalmente, esse fato não é burlar a fila, tanto o uso das aspas, mas um reparo do Brasil na sua história permeada de injustiças e de desamparo. Por questões de raça, status e cultura, muitos não foram assimilados por uma sociedade preconceituosa a se julgar superior por força de sua pele, do local de nascimento ou dos cobres em seu bolso. As cotas vão eliminando desigualdades.
Ainda agor o nordestino migrante em São Paulo, levado em velhos ônibus clandestinos para ser porteiro ou zelador em prédios ou mão-de-obra barata em projetos ditos sociais, é tratado por “baiano”, como adjetivação pejorativa e preconceituosa. Ele vai direto para uma favela onde já tem parente ou amigo. Isso não é destino, é tragédia, tudo por conta da ausência de oportunidade de sua família incrustada em um grotão qualquer e da inexistência de educação básica na infância.
Voltando às filas: furá-las, no contexto, é não aceitar o outro à sua frente. É não respeitar a ordem natural das coisas. É procurar regalia em qualquer situação. É valer-se disso e daquilo para burlar os costumes e as leis. A esperteza, a malandragem, a promiscuidade entre o público e o privado é uma furação de fila enraizada a ser extirpada. Inclua o respeito ao outro e a si mesmo em seus desejos para 2013. O brasileiro precisa de epifanias. Feliz Ano Novo.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/12/2012.

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