“Te ofereço um ramo de fogo/do pomar da lascívia/um ramalhete de todas/as pulsações da vida”. Francisco Carvalho (1927-2013)
Neste Dia da Mulher, neste orbe comum ao sexo feminino, não tão femíneo como o conhecemos no século passado, saúdo, parabenizo e louvo as novas mulheres. Elas tomam as rédeas de países, estados e cidades, de parlamentos, de forças armadas e polícias, de instituições financeiras pátrias e internacionais, formam opiniões na imprensa, protestam em público, ensinam e comandam escolas e universidades, efetuam pesquisas, aquinhoam a magistratura, constroem edifícios, chefiam empresas, e ocupam, cada vez mais, assentos de ônibus, trens, táxis e aviões, atarefadas com os seus celulares, i-Pads e notebooks, equipagens simplificadas e agendas lotadas.
No entanto, por respeito, tenho a ousadia quixotesca de ressaltar, mesmo de leve e por princípio, as antigas mulheres/mães, hoje apenas uma das múltiplas faces da fêmea pós-moderna: aquela a acordar cedo para malhar ou andar, maquiar-se, fazer o seu próprio café e dirigir-se ao trabalho, após definir o dia dos filhos.
Sou filho da mãe em tempo integral, com nove filhos, decidida, prestimosa e cuidadosa do estudo, conduta e vida de cada um. Hoje, aos 93 anos, sabe – e se orgulha disso – ter criado filhos responsáveis, autônomos e alforriados para ousar e fazer os seus próprios caminhos. Um terço dos seus filhos criou asas. E foram exato as mulheres, as voadoras. Uma, socióloga, vive, com o marido médico, na Alemanha, onde as duas filhas estudam medicina; outra divide o tempo entre os EEUU e o Brasil; e a terceira moureja no Piauí, onde foi funcionária federal de nível superior, professora universitária e, agora, já aposentada, comanda com o marido e filhos um crescente negócio a envolver quase todos, exceto a filha médica ora entranhada na Amazônia.
A mulher de hoje não é santa, tampouco satã. Sabe dos seus direitos e não vê no homem o mero amparo, o pagante das contas, mas alguém com quem dividir os sonhos raros e as muitas agonias da vida. Está na hora dos legisladores dos parlamentos do mundo deixarem de fazer distinções de gênero, sem privilégios, cotas e com obrigações recíprocas. Falo do mundo ocidental, pois pouco sei dos meandros dos seguidores de Buda, Maomé, Alá, Lao Tse, Confúcio e outros. Embora inclua idas por lá, mais de uma vez, não captei a essência de suas filosofias, preceitos e crenças.
Voltando aos jovens pares, creio ser tempo de abertura de uma nova ordem familiar, a do compartilhamento, com alvedrio. A do entendimento, sem submissão. A do enfrentamento conjunto de dificuldades para a solução possível. A dissolução, quando o enlace acaba.
Fim das aparências e conveniências.
Mulher não é só paixão, tampouco formas voluptuosas, mas pessoa, além disso. É sensatez com bússola ou GPS inatos a desbravar os intrincados mistérios do mundo real, velha casamata vencida e quimera de homens carcomidos de um tempo roto, já transposto e sem retorno.
Simone de Beauvoir, uma libertária francesa, do século XX, falava: “Nenhuma mulher nasce mulher, torna-se.” A frase é de efeito. Ela queria dizer apenas ser dado a ela a obrigação de lutar, trabalhar, igualar-se, ter senso crítico, a não repousar acomodada à espera do divórcio, da viuvez e dos cobres. Parabéns às novas mulheres, não necessariamente, mulheres novas.
João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/03/2013.

