1. A MENINA, O POMBO E A VIDRAÇA – Uma menina loura com pitó, tipo Pedrita, espanta um pombo a catar sobra de comidas. Ele entrou por alguma porta, pois não há janelas nesse barulhento aeroporto. Estou defronte a uma vidraça a exibir, em primeiro plano, as pistas em uso de pouso e decolagem com seus movimentos e ruídos. Em segundo plano, uma sequência de árvores ao pé de uma rodovia por onde veículos queimam combustíveis e transportam cargas, angústias, sonhos, esperanças, doentes e outros tantos desprovidos de desejos ou conformados com o desengano. Eu cá, eles lá, enquanto um branco avião corta o ar e logo se esfuma. Ia em direção à esquerda, mas não estou bem certo, pois não sei como fico em relação aos pontos cardeais. Pessoas ao meu redor leem livros, usam os telefones e nano transmissores para dar notícias a quem sequer pediu ou deseja recebê-las. Chove.
2. PAÍS DO CONTRA – Estive no país do contra. Lá a moeda é a deles, as dos outros só servem nos cambistas a explorar incautos com “fee” inexistente. No chão, o escrito pede para se olhar ao contrário do costume.Os veículos vêm sempre do jeito não esperado. A língua dos nativos-ou dos treinados para parecer como tais – é soprada,aspirada,afetada e parece aformosear quem fala. Há muita gente na rua, de todas as raças, e o encanto da grande loja de esquina decorada externamente com luzes de um Natal faltante, atrai o passante. Uma vitrina é decorada apenas com frascos de perfume seguros por fios. Os frascos começam finos, aureolados, e terminam bojudos, daí a inflexão para cima ou para baixo, depende do olhar de quem os vê. É a alternativa encontrada para os vazios de espírito? Ou mero fetiche? Todos deveriam descer ao subsolo quase vazio e olhar a canhestra homenagem com as fotos, circundadas por flores de plástico, da ex-princesa com o rapaz arábico, filho do ex-dono. Foram quase–namorados, quase-amantes, quase-casados e se finaram em túnel do outro lado do canal da Mancha. Em alta ligeireza. As fotos banais são quase encobertas por uma exposição de peças egípcias, mais antigas do que as três pirâmides matizadas pela areia e o vento do deserto. E a escada sobe. Saio da loja e entro na Abadia Maior para o serviço das cinco da tarde, quarta, 20 de março e revejo o latim nas partituras e nos cânticos entoados com decência e aprumo ao som de órgão não profano. O novo arcebispo da Cantuária assumira naquele dia. Há duas falas, ele e ela, e nenhuma delas mostra empáfia, apenas recitam salmos e os contextualizam ao dia frio e nebuloso de lá fora. Keep calm and carry on.
3. A VOLTA – Voltei apressado. Demorei metade do planejado.
A vida estava a chamar-me por benquerença. Voejei. Fui direto ao hospital. O pingar repetido de um soro aditivado com anti-coagulante realçava a respiração contida, a energia e a força da genetriz e amiga, a recuperar-se, oxigenada, de uma embolia. “Pela palavra, o homem é uma metáfora de si mesmo”, dizia Octavio Paz. Será?
João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/03/2013.

