APRENDIZ DE PAI

Fazemos exames para passar a cada ano no colégio, servir ao Exército, entrar na universidade, ter a carteira de motorista, arranjar emprego e tantos outros mais. Para fazer esses exames, nós nos preparamos, estudamos, perguntamos, pesquisamos.
E ninguém faz nenhum tipo de curso ou exame para ser pai, uma das mais importantes funções ou tarefas de nossa vida. Mesmo que se leia alguns livros, somos totalmente despreparados ao iniciar nossa “carreira” de pai.
De repente, se sai de uma maternidade com uma criaturinha nos braços enrolada em panos. Vamos procurando entender seus sinais e movimentos. Entre fraldas e cueiros faz xixi a toda hora, chora quando está com fome ou dor e não fala nada. O pai, esse ser periférico, fica desesperado e tenta conviver com o novo, sem saber direito como proceder. A mãe leva nove meses de vantagem, e são, ela e a criatura, naturalmente, íntimos. Pois bem, o pai vai errando e tentando aprender. Antigamente, existiam as avós, as tias, as velhas e fiéis agregadas das famílias para ajudar, mas a vida mudou e hoje instituiu-se a familiar nuclear e cada um cuida de si.
Depois de muito leite, pediatra, vacinas, papinha, mingau e conversa ta-ti-bi-tate, a criaturinha passa a engatinhar e se meter nos locais mais esquisitos da casa. É um pulo para começar a andar. Com um jeito de bêbado em fim de festa, lá vem a criaturinha rindo até que bate a cabeça na mesa mais próxima. E correndo se vai ao médico que, para completar, nos chama de leigo ou, simplesmente pai, como se isso fosse sinônimo de ignorante.
Afinal, chega o dia da primeira aula no maternal e lá se está a criaturinha com um aparato de farda, pasta, merendeira mais parecendo um escoteiro indo acampar. Há choro na despedida e se fica com o coração batendo acelerado.
Vem a escola de verdade, a seguir, e tome acordar cedo para ajudar a criaturinha a se levantar, vestir a farda, não esquecer do dever de casa, dos livros, do dinheirinho para o lanche e dos pagamentos extras que a escola sempre cobra.
A criatura cresceu, começa a ficar adulta, já tem uma turma de amigos, tranca-se no quarto, coloca o som nas alturas e não quer mais papo com o coroa do pai. Só fala por monossílabos e diz que o pai não entende nada. E é verdade. Então, chega – para quem ainda pode – o tempo de mandar a criatura fazer um desses programas de intercâmbio no exterior e o besteirol começa com as informações dos pais que já mandaram antes, o enxoval e a partida triunfal, rumo à fama e um álbum de fotografia. De repente, um cara que nunca vimos mais gordo, passa a ser “o pai americano” de nossa criatura. Ora, ora. Retorna da viagem, quase sempre, com uns quilinhos a mais, um inglês para demonstração aos amigos e novos cds com música de cantores pops.
Vem o vestibular e a família se transforma. É um clima de guerra. Aulas a toda hora, livros espalhados, choros fora de hora, nervosismo, até que o jornal publica a relação e se a criatura foi aprovada, sobe à condição de herói familiar, digna de todas as atenções e recompensas. A mãe ajuda na cobrança.
A criatura é gente e, como tal, namora, fica, rola, ama, odeia, paquera e ai não se sabe como agir. Hoje, já não se conhece mais o pai ou a mãe da nova companhia da nossa criatura, pois o mundo mudou. O José é José, a Maria é Maria, sem sobrenomes. E, olhar atento, tentando sondar, conversa-se com a outra criatura filha do outro pai, pisando em ovos para não causar melindres.
Uma bela noite, depois de tantos preparativos e crises, a nossa criatura vai casar. É o ciclo natural. Antes de colocar a gravata, olhamos no espelho uma lágrima que cai furtiva misturando sentimentos, trazendo recordações e invocando graças. Tão nova, já casando, é assim que o mundo gira. E o pai, em meio a convidados, é um aprendiz nesse acontecimento gerador, com a graça de Deus, de novas criaturas.
E algumas mães ao lerem este artigo poderão dizer, com razão: estes pais são uns filhos da mãe. Pois é, ainda não aprendemos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/08/2001.

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