ARGENTINA, CRISTINA – Jornal O Estado

Daqui a dois dias haverá eleições para presidente na Argentina, ume país é bonito e paradoxal. Acredita-se europeu em meio aos trópicos, embora tenha parte de seu território na Antártida. A grande maioria da população tem sobrenome italiano, outros são de origem hispânica, alguns árabes, alemães e inclusive judeus. Todos se vestem como europeus, dizem as más línguas, pensando que são ingleses de costeletas.
Os estrangeiros contam que eles são machistas, mas se deixam dominar por mulheres. Quem iniciou tudo foi o presidente Juan Domingos Perón, mal comparando, uma espécie de Vargas argentino. Perón teve duas mulheres metidas em política. A primeira, Evita, era uma espécie de mãe assistencialista de todos. Cantora apenas razoável, embora com idade de filha de Perón, se finou em 1952, vítima de câncer aos 33 anos. Teve um velório de 14 dias e está enterrada no cemitério da Recoleta onde, diariamente, flores naturais são colocadas em seu rico túmulo.
Passado algum tempo, criado e cultivado o mito Evita, Perón casa com Isabelita, igualmente bem mais nova, artista iniciante de teatro e loira como a primeira. Não contente em ter casado, já alquebrado pelo tempo, Perón resolve fazê-la sua vice-presidente da República. E o consegue. Morre em 1974, Isabelita assume e a corrupção aumenta em níveis despudorados, tendo sido destituída pelos militares, em 1976. Só homens vieram depois. Agora, neste domingo próximo, 28 de outubro, a Argentina volta a optar entre duas mulheres. A favorita é Cristina Kirchner, mulher do Presidente Néstor Kirchner, que desistiu da reeleição. Peronista, cinquentona, senadora há vários mandatos, visual novo, grande capacidade de diálogo, o que falta a seu marido, tido como de sangue quente reeleição. A outra candidata é Elisa Carrió, da frente oposicionista Coalização Cívica, com poucas chances de vitória, dizem as pesquisas.
Assim, a partir de segunda, o país vizinho que oscila entre a alegria com que encara o futebol e a amargura com que se deixa dominar pelo dramático compasso do tango e pelas tragédias pessoais, amanhece com a mesma face e isso já pode ser dito, pois Néstor e Cristina formam uma dobradinha e governam juntos, sem nenhum preconceito. A grande maioria dos argentinos encara a eleição com indiferença.
A Argentina-2007 é um país em franca recuperação, mas teve a renda de sua classe média achatada, ao mesmo tempo em que a outrora rica Buenos Aires cedeu espaços para o surgimento de favelas que podem, por exemplo, ser vistas ao longo da estrada que demanda ao aeroporto de Ezeiza. A propalada autoestima elevada que o argentino diz ter pode não ser tão verdadeira. Citando Ortega Y Gasset é lícito dizer que “há uma permanente dissociação entre a imagem que têm de si mesmo e a realidade”. Esse fato se verifica no próprio jeito de falar dos argentinos. Quase sempre, iniciam com a palavra não(no) quando querem dizer sim.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/10/2007.

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