ARI DE SÁ CAVALCANTE, PRELÚDIO DE ARTIGO – Jornal O Estado

O meu olhar criança via o professor Ari de Sá Cavalcante – Ari de Sá – vestido, quase sempre, com ternos claros e gravata. Pouco sorriso nos lábios encimados por bigode negro e o escasso falar dos incomuns. Nesse tempo eu usava farda com calças curtas, no Farias Brito-FB, na Avenida Duque de Caxias, esquina com a Rua Major Facundo. Ali estudei desde o primeiro ano do primário até a conclusão do curso de Humanidades.
Ari de Sá integrava o Partido Social Democrático, PSD, o mesmo do seu irmão, Walter de Sá Cavalcante, deputado federal. Certamente atiçado por Walter, foi candidato, duas vezes, a prefeito de Fortaleza.
Meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, era seu amigo e colega no Diretório do PSD. Creio ser essa a razão maior pela qual me matriculou no FB, pois sabia a quem estava entregando o seu primogênito. Outra razão, nós morávamos ali perto, na própria Major Facundo.
Andava pouco, bastava mudar de calçada e atravessar a Clarindo de Queiroz. Na última casa, antes do FB, morava o livreiro Luiz Maia, dono da “Livraria Renascença”, na mesma Major Facundo, dois quarteirões adiante, lado da sombra, logo ao atravessar a Rua Pedro Pereira. Defronte, lado do sol, Edson Queiroz montara loja da Ceará Gás Butano.
Mesmo com diferentes encargos, Ari de Sá foi aprovado em concurso público para professor do Colégio Militar de Fortaleza. A sua formação bacharelesca, não o impediu a se concorrer ao ensino de Matemática. Exitoso, talvez por acreditar fosse ela a mais simples das ciências, como propalava Auguste Comte, o pai da Sociologia.
Assim, saía e voltava – da sua casa na Av. D. Manuel, 482, a base do seu triângulo não equilátero, para a Av. Santos Dumont, onde ainda hoje funciona a unidade escolar do Exército em Fortaleza, e abria o ângulo em hipotética linha reta até a sede do FB, na Praça do Carmo. A diretoria do FB era composta por dois bacharéis em direito, Ari de Sá e João César.
Raul Barbosa, Governador do Ceará (1951-1954), escolheu Ari de Sá para ser seu secretário da Fazenda, não pela grei partidária, mas pelo escrutínio de sua visão socioeconômica. O professor Ari, nascido em 1917, em Jucás, crescia e aparecia na sua simplicidade.
Quando emergiu a hoje Faculdade de Economia, Administração, Atuária e Contabilidade, da Universidade Federal do Ceará, Ari tornou-se seu professor. Em seguida, diretor, por seis vezes, consecutivas. Criou o “CAEN – Centro de Aperfeiçoamento de Economistas do Nordeste”.
O CAEN aproveitava a “expertise” de parte de seus professores, oriundos do Banco do Nordeste, pródigo em aperfeiçoá-los nos EEUU e em outros países, de onde voltavam mestres e se tornavam TDEs., Técnicos em Desenvolvimento Econômico, dando contribuição ao que Celso Furtado sonhava para a região, saber para crescer.
Aos 49 anos, em São Paulo, aonde muitos vão atrás de cura, Ari de Sá se finou. Anos depois, quis a vida que o seu Farias Brito passasse por dicotomia.
Nascia o Colégio Ari de Sá. Muitas vezes não entendemos por que famílias – em segunda geração- se partilham. Talvez, com a sua matemática célica, o professor Ari de Sá soubesse e, quiçá, emulasse a disputa como um sofisma matemático: dividir para multiplicar. Cada uma das organizações, agora já faculdades, em múltiplas sedes, evoca para si ser a maior do Estado. As duas, juntas, valha-me Deus.
Escolhi, de propósito, o jornal O Estado para publicar este artigo. Ao tempo em que Walter Sá Cavalcante foi diretor deste matutino, Ari de Sá aqui escreveu, sob pseudônimo, crônicas, depois enfeixadas no livro “Para Ler no Bonde”.
Espero, com vagar, entregar à família de Ari de Sá Cavalcante algo que supere este prelúdio, quando da comemoração do centenário do seu mentor maior, no próximo ano.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/11/2016.

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