Em um desses papos informais que todos temos ou deveríamos ter, verifiquei que muita gente não curte mais as coisas simples da vida. De um tempo para cá as pessoas reclamam de tudo: do governo, do povo, da família e delas próprias. Reclamam, reclamam e não cuidam de simplificar suas vidas, cortando o que não convém. É claro que não se pode cortar tudo, mas vale, pelo menos, evitar, desconversar, sair de fininho etc.
Por curiosidade pessoal – e em decorrência de tal conversa – tentei enumerar, por exemplo, algumas coisas e pessoas que me dão prazer e considero boas ao meu viver. Vou colocar em ordem alfabética para deixar claro que não é uma classificação, mas uma listagem: acordar cedo, amar, amigos, andar, anonimato, aprender, ar condicionado, banho frio, café com minha mãe aos domingos, cinema no cinema, cheirar a Amanda, comer e beber com amigos, comer pouco, construir, conversa inteligente, criar, descobrir lugares novos, dinheiro no bolso, dizer o que penso, enfrentar desafios, escrever, esquecer mágoas, estar com saúde, estar vivo, fazer as pazes, ficar em casa, lençol velho, ler, ler livro grifando, meu quarto, minhas filhas, música lenta, orar pouco e só, pagar em dia, pesquisar na Internet, recortar jornal e revista, roupa usada, ser independente, ser útil aos outros, sonhar, soprar os pés da Luana, tesão, trabalhar, viajar, além de outros.
Cada pessoa sabe quais são as melhores coisas da vida para ela. Depende do sexo, da idade, do estado civil, da situação financeira, do nível intelectual, da bagagem cultural, do estado de espírito etc. Procure você fazer uma lista das coisas e pessoas que lhe agradam.
Eu, enquanto puder, vou tentar, neste ano, não falar em crises, catástrofes, problemas, política, economia etc. Já tem muita gente cuidando disso. Das crises e catástrofes, as televisões fazem os seus filões; os problemas estão ajudando psiquiatras, psicanalistas e psicólogos; a política é o carro forte dos jornais que batem nos governos federal, estaduais e municipais e adoram uma publicidade institucional; economia é coisa para todo mundo, até para economista.
O ideal, repito, nestes dias de hoje, é tentar falar das coisas boas da vida, não à guisa de fuga da realidade, mas como forma de ajudar a transformá-la em algo mais leve, menos caótica e suportável. O que são as coisas boas da vida? São as que fazemos por e com prazer, sem obrigações, com riso e alegria no coração.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/01/1999.

