Algumas pessoas estão impressionadas com os discursos de Barack Obama, o novo presidente americano que tomou posse nesta semana. Dizem que eles expressam o novo, mas, agora tem tempero moderado ou até conservador. Dizem ainda que as frases são precisas, certeiras e que ele fala o que povo precisa ouvir. Por trás de todos os últimos discursos do senador, do candidato a presidente e o da posse, no dia 20, nesta terça, está alguém vinte anos mais jovem que Obama. Ele se chama Jon Favreau e não deve ser confundido com o ator e cineasta americano de mesmo nome que dirigiu o filme Iron Man. Favreau, o escritor, tem 27 anos e cara de estudante, embora tenha concluído Ciências Políticas na Holy Cross, em Worcester, Massachussets, uma escola sem grande notoriedade. Favreau, com um currículo mínimo, conheceu Obama em 2005, pois havia sido um dos elaboradores de discursos de John Kerry, o último candidato democrata derrotado por George W. Bush. A partir de então, Favreau – já seu assessor no Senado – e Obama, criaram uma estratégia de trabalho comum. Sempre discutem o tema do próximo discurso, Obama diz as suas linhas de pensamento sobre o assunto e Favreau faz a montagem que, ao contrário de outros políticos, é rediscutida e até revista por Obama, um vaidoso harvadiano. Dessa forma, Favreau, um ghost writer solteiro e livre, pode seguir, como um fantasma todos os discursos, passos e entrevistas públicas de Obama. Há, entretanto, admiração e respeito de Favreau ao pensamento político e social, história pessoal, sonhos e esperanças de Obama que, após eleito, modulou a sua retórica e teve que assumir uma postura mais moderada para obter votos dos republicanos e mostrar aos americanos que a crise é mais profunda que imaginava. Esse tom moderado já está sendo chamado de conservador, por alguns democratas e pelas várias facções da contraconcultura e da esquerda americana que, em peso, votaram em Obama. Um exemplo disso é que dos 59 senadores democratas, somente 52 votaram no que Obama lhes pediu por telefone ou em contatos pessoais. Na véspera da posse, por exemplo, Obama foi a um jantar de gala oferecido por seu adversário de eleição, John McCain que, inclusive retribuiu no dia seguinte, sendo visível no palanque oficial. Desta forma, a realidade entrou cedo no discurso, pensamentos e ações de Obama e isto tem feito Jon Favreau ser um pesquisador da História americana e dos discursos dos ex-presidentes de ambos os partidos. Quem não fala, Deus não ouve, diz o povo.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/01/2009

