AS FOTOS – Diário do Nordeste

Tenho, entre outras, mania de recortar jornais e revistas. Não importa esteja trabalhando, preguiçando, comendo, viajando, a espera de cinema, teatro, o que for. Corto com tesoura, cartão de crédito, régua, caneta e até com as mãos. Sou canhoto e eles – eu, pelo menos – não são bons de linha reta. Guardo o recorte no bolso mais próximo, criado mudo, pasta ou nas mesas onde trabalho. Um dia qualquer, sem querer, descubro dado recorte. Agora, por exemplo, estou às mãos com um recorte, sem legendas ou data, de Angela Merkel, a premiê alemã. Não é uma foto comum. Ela está de muletas por ter levado um tombo qualquer. Foi este ano. Não sei a data. A foto é da agência Reuters. Merkel, tal como Dilma, andou engessando a perna e não parou de trabalhar. No último dia de maio, 31, Merkel resolveu ir à Índia no seu Air-Bus 340.Quando o avião sobrevoava o espaço aéreo iraniano, recebeu ultimato para voltar à Turquia. Falaram, então, ser o avião da premiê alemã. Os iranianos não cederam. Depois de duas horas de diálogo, sobrevoando a Turquia, o Irã autorizou a passagem do Air-Bus. Em seguida, divulgaram notícias, por todos os meios de comunicação, de que os alemães viajavam para vender armas à Índia.
Esta breve nota é para mostrar como é o dia-a-dia de uma mulher que resolve, por seu cargo e autoridade, gerir um posto, até pouco tempo, dito masculino. A presidente Dilma, nestes quase seis meses de governo, além da perna enfaixada, teve sobressaltos fortes que, em determinado momento, romperam sua defesa imunológica e causaram-lhe uma pneumonia. Agora, cercada por duas novas escudeiras, Dilma tenta governar em meio aos reclamos do PMDB e dos muitos resmungos do PT paulista. O maior problema do governo atual não é a oposição, mas a situação, que tudo almeja e pouco está ligando para o sexo e a saúde da presidente. Volto à foto. Olho o que está exato no seu verso. Outra foto, difícil de entender sem legendas. Uma jovem bonita, farta cabeleira, riso perfeito, afaga um senhor de bigodes e cabelos brancos, em cujas narinas estão dois condutores de oxigênio. Os olhos dele, castanhos, perplexos, parecem olhar o (in) finito.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/06/2011.

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