Seria bom que o dia de hoje fosse um dia alegre para todas as mães brasileiras. Seria bom que todos os filhos pudessem homenageá-las e vê-las felizes. Seria bom que todos nós tivéssemos a consciência tranquila de que as mães são assistidas, respeitadas, amadas e festejadas. Neste País em que 40 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, a história real é bem diferente da mostrada nos elaborados comerciais de televisão, jornais e emissoras de rádio. Não haverá festa, nem presentes para a maioria das mães brasileiras, especialmente as mães-meninas. Será mais um dia de cão.
Em qualquer pequena, média ou grande cidade brasileira você viu, vê e verá, dia e noite, adolescentes grávidas ou jovens mães vestidas com andrajos levando crianças ao colo ou puxando pela mão como aval para mendigar nos semáforos, praças, avenidas e portas de templos religiosos. Este é um retrato cruel, sem retoques e malsinado de um país que se arvora de ser uma das maiores economias do mundo.
Neste dia das mães é para essas meninas-mães ou mães-meninas que a lembrança acode. Não estudaram, suas famílias são desestruturadas, têm na face a desnutrição, nos olhos carregam a desilusão, no corpo as mazelas, mas não puderam conter o fogo natural da juventude, perdidas na voracidade das noites em que tudo é permitido, nada é vigiado e o sol custa a nascer.
Sem saber nada de nada, estavam grávidas a troco de qualquer coisa e jogadas em um mundo cruel que as discrimina e desampara. O que dizer de tudo isso? O que é tudo isso? Há dezenas de órgãos de proteção aos menores. Há um Estatuto da Criança e do Adolescente e tudo continua na mesma, sem que nenhuma orientação seja dada ou providência tomada. Não são raros os casos de mães que entregam seus filhos por qualquer ninharia e o fazem, quem sabe, como um último ato de amor. Se não podem mantê-los têm, pelo menos a esperança ou a ilusão de que a pessoa que ´comprou´ sua criança cuidará dela melhor e a criará ´feito gente´.
Pode ser indelicado falar, no dia de hoje, nesta face cruel que tentamos esquecer ou ignorar. Por outro lado, seria bom que cada pessoa de bem pudesse sair de seus casulos e em meio às suas festas pantagruélicas sentisse um pouco dessa dor e compartilhasse da solução com responsabilidade solidária, a partir de engajamentos cívicos, sem demagogia ou alardes.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/05/2003.

