Amanhã, dia 08, se comemora mais um Dia Internacional da Mulher. Talvez, por tal razão tenham me ocorrido às reflexões abaixo. Não as fiz, com o propósito de agradar ou desagradar, mas com a intenção de procurar entender o que aconteceu conosco, homens e mulheres neste fim de século. Não necessariamente, o fim dos tempos. Quiçá, um novo.
Nós, os homens nascidos pelo meio deste século, não fomos, culturalmente, acostumados a atender a alma feminina. Víamos, em nossas casas, quase sempre, um pai dominador com direito a tudo. Nossa mãe era, via de regra, submissa. Estudávamos em colégios só para homens, jogávamos futebol, brigávamos de tapa uns com os outros, começávamos a namorar meio amedrontados e nos iniciávamos sexualmente com prostitutas.
O nosso contato mais aberto com as mulheres, como parceiras, começava na universidade ou no trabalho. Jovens, mulheres e homens, não sabiam como lidar um com o outro. Era o princípio de um aprendizado doloroso e, ao mesmo tempo, estimulante. Surgiam os Beatles, acontecia o ano de 1968, eclodia o cenário de Woodstock e o feminismo mostrava a sua cara mais sectária, para se defender de um mundo absolutamente masculino, machista.
Os homens não sabiam como lidar com essa avalanche e reagiam mal. Procuravam uma afirmação e não tinham referências para descobrir a saída. A perpetuação do machismo estava sedimentada no seu inconsciente e não havia, ainda, a consciência de que homens e mulheres são seres complementares e não adversários. Não existia literatura, não havia história, não havia boa vontade e, principalmente não havia preparo, de lado a lado.
Estávamos atônitos e não tínhamos referências. O resultado foi triste. Os casamentos iam fazendo água. Os que permaneceram, de um modo geral, ainda têm o ranço da conveniência burguesa e se apequenaram na acomodação e na farsa. Os que acabaram, produziram suas mazelas, físicas e mentais, desencorajando, muitas vezes, novas relações pelo medo do fracasso e a inabilidade de saber lidar com circunstâncias novas, como conviver com os filhos do outro ou da outra.
Antes que o “bug” do milênio ameaçasse os nossos computadores e, consequentemente as nossas vidas, fomos atacados por esse vírus do descompasso entre homens e mulheres, irremediavelmente destinados a desvendar os caminhos de uma nova relação, a custa de tantos desencontros e muita dor. Será que valeu a pena? Claro. É preciso chorar para aprender a alegria de enxugar as lágrimas. É necessário saber como levantar quando se tropeça. É lógico rediscutir as relações homens e mulheres e transformar o casamento não em um contrato mas em um acordo de vontades, sentimentos e aspirações.
Tudo isso é óbvio, mas a vida nos mostra que nem sempre vemos o óbvio e nos perdemos complicando o simples, como se fossemos cerimonialistas querendo mostrar serviço. É preciso acabar com o duplo sentido do título. As mulheres não são os nós de nossas vidas. Pelo contrário, é preciso aprender juntos a desatar nós e celebrar alianças. E aí sim, criar um novo nós, mulher e homem, seres distintos e destinados a formar uma nova sociedade a procura das respostas que não conseguimos descobrir, ainda.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/03/1999.

