AUDIFAX, RIOS DE SAUDADE – Jornal O Estado

“É importante registrar, de antemão, para conhecimentos dos novatos que esta tertúlia há muito vem acontecendo, heterogênea e informal…”, Audifax Rios, 20.02.2002
Sábado passado, o “Clube do Bode” perdeu o seu secretário Audifax Rios. Cuidadoso, ele ligara de Santana do Acaraú, sua terra natal, e pedira ao Sérgio Braga, “pai-de-chiqueiro-mor”, que colhesse as assinaturas dos presentes.
Como se sabe, o Clube do Bode é entidade “sui generis”, cunhada em 2000, a reunir, de forma desconvencional e anárquica, escritores, artistas plásticos, poetas, ex e atuais políticos de tendências mis, jornalistas, compositores, cantores, profissionais liberais, empresários e outros, cristãos ou ateus, que por lá aportam com objetivos pessoais, comuns ou peculiares.
Os caprinos comparecem às sextas noturnas e aos sábados matutinos na sede aos fundos da longeva “Livros Técnicos”, justo na sala do Braga que a todos recebe no espaço conflagrado por opiniões colidentes, vozes exacerbadas, bebidas e petiscos, por conta da casa.
Quando a sala superlota, o grupo se desloca para a calçada adjacente. Só aí cada um passa a pagar a sua conta, servidos por distintos garçons. Há 13 anos, Audifax virou o nosso Pedro Vaz Caminha, registrando tudo em 691 atas, a partir de 20 de fevereiro de 2002, enfeixadas em 38 volumes. Ele o fazia com precisão jornalística, não só as presenças, mas os “causos”, as gabolices, os livros lançados, caricaturava, colava recortes de jornais e, infelizmente, o registro da morte de pares.
Pois não é que, logo após a ligação, ao banho, o Audifax teve encontro relâmpago e definitivo com a nefanda. Essa, sempre à espreita, modo e jeito aleatório, ceifa inteligências e outras, nem tanto. Autodidata, fez-se, por sua conta e risco, cenógrafo, ilustrador, xilógrafo, pintor, criador publicitário, romancista e, por último, jogou a timidez para o alto e assinou, por anos, crônica semanal no “O Povo”.
Ele e eu tínhamos boas conversas, a partir de sua mordacidade e da sua abstemia que o fazia vigilante das tagarelices, dos egos inflamados e dos que lá vão apenas para estar perto dos que lhe interessam.
Fiquei triste quando o Ubiratan comunicou-me o infortúnio. Perdi a graça. Só aquietei-me quando o vi, sereno em sua horizontalidade, com camisa multicor, pranteado pela família e por centenas de amigos e admiradores. Registro cinco depoimentos de amigos do Audifax. Cada um a seu jeito:
1-B. C. Neto: “Indescritivelmente entristecido, hoje assinarei uma ata diferente. Fugitivo, confesso das grandes dores existenciais, nunca apareço nem enfrento esses momentos. Tem sido assim. De repente, me encontro no vácuo para escrever sobre um amigo-irmão e publicar na marcante ata da vida. O Audifax sempre me lembrou de nosso sangue armorial de nordestino autêntico, que escorre, lentamente pelos córregos, veredas e tabuleiros do nosso sertão, rumo ao mar, onde recebeu carimbo e cidadania plena de cearense fidedigno. Continuaremos nossos cânticos e benditos na procissão dos lutadores”.
2. Durval Aires Filho: “Admirado por sua simplicidade, Audifax nasceu artista plástico, começando a trabalhar no canal 2, pintando cenários, convivendo com João Ramos, Emiliano Queiroz, B.de Paiva e Augusto Borges, entre outros talentos. Possuía um traço inconfundível, expressando, com carga emotiva, toda realidade do semiárido. Foi excelente escritor. Quando publicou “Bar Peixe Frito”, há quase quarenta anos, comemoramos. Depois do texto, peixe assado e aguardente. Era alegria encontrá-lo na companhia de Carlos Paiva, Augusto Pontes e Gervásio de Paula. Agora, compartilho com a D. Valda, Mariana, João e com infinidade de amigos, a tristeza de sua ausência. É a vida, meu senhor!”.
3. Paulo de Tarso Pardal: “Iniciei minha vida nas artes por meio do Audifax. Aprendi quase tudo com ele. E ele se fez meu professor, sem pedir para sê-lo: ele, simplesmente, foi me ensinando, sem saber da transformação por que eu passaria, logo após nossos primeiros encontros. Acho que, pela simplicidade e pelo prazer de ensinar. Na verdade, acredito que ele era despregado do mundo. Ele vivia aqui, porque tinha como missão ver o mundo diferentemente e ensinar as pessoas a serem assim. Penso que, em parte, ele conseguiu, porque muitos modificaram suas vidas pelos seus ensinamentos. O mais importante é que ele já está presente dentro da gente e dentro de muitas casas, mesmo não estando mais aqui.”
4. Ubiratan Aguiar: “Ele fez da simplicidade a marca registrada do seu talento. Nos traços, nas letras, nas cores de suas telas estavam presentes a alma sertaneja do homem da Santana, o verbo candente dos que clamam por justiça social. Sóbrio no dizer, fraterno nas amizades, abriu caminhos e fez história na vida cultural de Fortaleza. Encontrou-se no Clube do Bode e em um processo de simbiose ficou difícil identificar diferenças e semelhanças entre eles.
Audifax escreveu sua vida com a grandeza da humildade, a disponibilidade no servir e a elevação de princípio.”
5. Virgílio Maia: “Audifax e eu nos conhecemos e travamos imediata amizade por volta de 76, quando vim de Minas: para mim, foi como achar ouro em pó. Difícil se encontrar, se é que se encontra pessoa de melhor caráter, incapaz, absolutamente incapaz de cometer, com quem quer que seja ou fosse, a mínima descortesia ou deslealdade. Possuidor de alma vocacionada à boêmia e às artes, soube, porém, mediar esse chamamento como àquela outra vocação que igualmente lhe completava: a familiar. Foi marido, pai e avô cheio de compreensão e de amorosa ternura. Fizemos várias parcerias artísticas, ele pacientemente ilustrando algum verso que eu houvera cometido. Publicamos em conjunto, pela Editora Giordano, de Sampa, a “Via-Sacra Sertaneja”. Audifax foi de um tudo: romancista, xilógrafo, cordelista, pintor, editor, publicitário: era meio renascentista, o que quisesse ser, fazia o que queria, o ‘homo faber’. Mas lá se foi meu nobre amigo Dom José de Santana: era assim que eu o chamava.”
A missa de 7º. dia será hoje, sexta, 1º. de maio, às 20h30 na Paróquia de Santa Luzia. Requiescat in pace

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/05/2015

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