Cheguei ao Aeroporto Luís Eduardo Magalhães, antigo 02 de julho, muitos séculos depois que D. Thomé de Souza, tido como fidalgo português, aportou por lá em 1549. Tomei um carro e logo fui envolvido por um túnel de bambus quase um ramalhete verde que dá boas vindas aos que se aproximam da Primeira Capital. Estive na Bahia de Jorge Amado. Vi uma grande exposição de pinturas em que ele é a figura principal em “slacks” com folhas vermelhas. Ele só. Ele com Zélia e ele com o povo. Jorge, agora centenário e, agora talvez em papos transcendentais no além com Caribé, é nome de quase tudo na Bahia. Estava reeditado em livrarias, em capas mole e dura. Um amigo me diz que Jorge é tal qual o Antônio Carlos Magalhães, o deus e o diabo na seara dos votos, que ainda disputa mandato através do neto nominado. Comparação estranha. Calo-me.
Depois, andei – varando uma multidão que ouvia um pastor evangélico televisivo, pela Praça Castro Alves, mar ao fundo, pertinho da Prefeitura, do elevador Lacerda, da monumental Secretaria da Cultura e do Pelourinho apinhado de vendedores e uma ambulância de portas abertas e luzes piscando. Não havia acidente, tampouco crimes. A cidade nos abrasileiriza em sabores, cores e no jeito dolente de falar: “Diga, meu lindo”. Entrei na casa de Yemanjá com a fachada plena de recortes de azulejos multicores.
Fui a um cinema de exibidora mexicana que é um luxo só, a partir de poltronas que se mexem ao sabor da trama e do vento que surge na quarta dimensão.
Exaurido, desci ao nível do mar, em noite agradável em receptivo restaurante cujo maitre deixara o sushi e voltara ao acarajé e outros acepipes com pimentas de cheiros e paladares díspares. Enrubesci a minha taça e ela se fez vazia enquanto a luz mostrava, ao longe, a ilha de Itaparica, a que se vai de ferryboat, que deu vexame no outro dia. A taça seguinte me fazia pleno de sentidos ao ouvir a música ao longe. Não a de lounge. Como disse Jorge: “Assim é a Bahia. Ligada ao passado, fitando o futuro”.
Uma coisa me alegrou por lá. Não há motoboys ou mototáxis. Se os há, são piratas sem olho de vidro e sem cara de mau. O tráfego é lento enquanto ouço sirenes e vejo um cortejo de motos seguir o ônibus tricolor do Bahia. Todos param e lá vai o Bahia para um jogo de futebol em que não ganhou, tampouco perdeu do Atlético Mineiro. Esgueiro-me pela imensa orla marítima até o meu pouso que fica em uma encosta, frente à arrebentação do mar aberto. Cai uma chuva fina e adormeço ao som da TV Justiça.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/09/2012.

