BANCOS, CLIENTES E GANÂNCIA – Jornal O Estado

Estória velha: Um índio entra em um banco e pede mil reais emprestados. O gerente pergunta: o que você me dá em garantia? Minha canoa e o remo. Fecham o negócio. Quando o índio ia saindo com o dinheiro, o gerente fala: você deveria deixar o dinheiro aqui, é mais seguro. O índio, na sua sabedoria tabajara, indaga: e o que você me dá em troca? A nossa confiança, boa, boa, boa.
O poeta americano Robert Frost bem define um banco: “é um lugar onde emprestam um guarda-chuva quando há bom tempo e, pedem-no de volta quando começa a chover.” Os bancos, inclusive os brasileiros, deixaram, faz tempo, de ter a função básica de prestar bons serviços a seus clientes. Alguns quebraram, houve fusões com agigantamento de poucos, surgiram os transnacionais. Há já relativo tempo figuram nas páginas policiais. Por trás dos mensalões havia banco com doações e empréstimos de mentirinha. Nas eleições sempre há doações de bancos. Quais as razões?
Hoje, os bancos são apenas estruturas montadas organicamente sob as bênçãos do dinheiro do governo e do povo, para manipular o cliente com formas inimagináveis. Primeiro, todos clientes são suspeitos. Ninguém entra em banco sem passar por triagem. Como a segurança pública não funciona, todos são filmados, nivelados a marginais e alguns chegam a sofrer constrangimentos. Ao adentrar o paraíso, surgem filas, desinformações e o quase descaso no atendimento provocado pela automação e pelos baixos salários que pagam a bancários e estagiários que se restringem a fazer o mínimo necessário. Entretanto, como os bancos são dos que mais gastam com publicidade encantatória, há pouca crítica na mídia. Quando há.
O Banco Central diz que controla as elevadas e automáticas taxas de serviços que cobram por quaisquer misteres solicitados ou não. Acresça-se o alvitre de gerentes, peritos em vender seguros, planos de previdência privada, consignados, cartões de crédito e débitos, capitalização, planos de saúde, fundos com taxas elevadas e outros mais. Suas corretoras de valores ganham em qualquer transação, quer o cliente lucre ou perca.
Quase todos os bancários recebem metas de produtividade e, se não as cumprirem, rua. Quem quiser ler sobre reclamações e ação contra bancos acesse os jornais, sites e blogs dos sindicatos da categoria ou converse com ex-bancários. Vale a pena ainda consultar os décors, os prótons, o Ministério Público e a Justiça. São milhares de demandas e ações em curso. Asdrúbal, velho aposentado ranheta, diz sempre nas reuniões de família: Vocês conhecem algum banqueiro que tenha morrido de coração? E conclui, pimpão. Eles nunca usam o coração.
Para concluir, Erich Fromm, escritor americano do século passado que falava sobre amor e vida, dizia que “a ganância é uma cova sem fundo que esvazia a pessoa em esforço infinito, sem nunca alcançar a satisfação.”

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/02/2013

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