Uma boa parte da minha vida gastei andando pelo mundo. Já vi fausto e miséria. No primeiro, segundo, terceiro e quarto mundos, pois sociólogos e afins têm manias de qualificar e classificar pessoas, países, religiões, comportamentos etc.
Já escrevi – e publiquei – sobre os desatinos da humanidade e quem quiser é só reler o que disse muitas vezes. São centenas de artigos. Falo de pessoas, de lugares, do que me alegra e aflige no mundo. Nada de muito profundo, pois para isso existem os filósofos. Mas, dizia que já vi muita coisa.
Vou citar alguns exemplos: estive no Oriente Médio. Conclui e concluo, sem medo, que ninguém vai resolver a questão entre judeus e árabes com conversas de gabinete. É uma guerra cruenta, de áreas tão próximas como bairros de uma mesma cidade. Ao mesmo tempo, já há uma miscigenação entre árabes e judeus formando uma juventude atônita, filhos que são de uns e outros. A posição francamente favorável dos Estados Unidos a Israel é tão clara e visível que pode ter gerado ódios sem limites. Certos ou errados, os palestinos sentem-se violentados e clamam pó um Estado.
Fui ao Extremo Oriente e sei que a divisão artificial entre a China e Twain não tem nada a ver com a sua cultura milenar. São irmãos, divididos apenas por ideologias e interesses estranhos. Alguém precisa fazer algo para unir ideias, famílias e sentimentos, isto sem falar no Vietnã, Laos e Cambodja. São mais de um bilhão de pessoas e nós, do lado de cá, fazendo piadas sobre os dois pauzinhos.
Tenho falado da fome da África, da miséria que ali transforma crianças esquálidas em futuras estatísticas de mortalidade infantil, das doenças endêmicas, da Aids que ataca a quase todos indiscriminadamente e da corrupção de governantes que são manipulados por multinacionais ou pelos países líderes. A tudo vemos com indiferença nos telejornais, nas revistas e jornais que vemos, ouvimos e lemos todos os dias, enquanto fazemos regimes para não engordar. O que separa a África da Europa é apenas o estreito de Gibraltar.
A Europa, desde a da década de 50, vem sendo invadida por imigrantes em busca da sobrevivência. São tratados, até hoje, como pessoas de segunda e terceira classes, alimentando ódios imensos. Um exemplo: a Alemanha só reconhece como alemão alguém que tenha, pelo menos, pai ou mãe alemã. Milhares de turcos nascidos na Alemanha são estrangeiros no próprio país onde nasceram.
Deixei as américas para o final. Há dois países muito ricos: Canadá e Estados Unidos. Alguns poucos remediados e o restante, muito pobres. A produção e exportação de cocaína, as guerrilhas, a prostituição e a imigração desenfreada para os Estados Unidos são frutos da indiferença e da gestão de alguns políticos despreparados, populistas, desonestos e respaldados.
Ninguém deverá mais ignorar o pobre, quer more longe ou ao lado. Um dia ele poderá se rebelar. O fanatismo não é só decorrente de questões religiosas, mas, quem sabe, fruto do desespero de vozes que nunca foram ouvidas por uma elite surda. Querem um exemplo? leiam a página A23 do jornal Folha de São Paulo, do dia 18 de fevereiro deste ano, em que os países árabes condenam ação (bombardeio sobre Bagdá no dia 16.02.2001) dos EUA e do Reino Unido e prometem retaliar. Não acreditaram. Deu no que deu.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/10/2001.

