BENQUERENÇA

Vai chegando um tempo em que as águas assentam no fundo do pote. Você sabe bem quando a coisa está acontecendo e quando as benquerenças ficam definidas. É uma coisa que não depende de você, nem de contrato, tampouco de tempo definido. Chega e mostra a cara, quando vem de sopetão, parecendo enchente de rio em inverno bom. Outras vezes, aparece de mansinho, vai somando afinidade e se define no jeito de ver as coisas, o mundo e as pessoas, principalmente, como se fosse uma árvore que vai crescendo e já lhe dá sombra. Há também aquelas que pareciam ser uma coisa e são outra. A purpurina parece ouro, mas não é. O ouro é feio e esmaecido, quando sai do garimpo. Aí a gente reformula o pensamento, pede desculpas, se explica e abre o coração sem medo. Tal como o polimento do ouro fora do garimpo bruto, quando o brilho resplandece parecendo sol de verão.
Benquerença é reserva de domínio de sentimento. É aquela vontade de trocar ideias sobre qualquer coisa ou nada, especificamente. É empatia ou anseio que se transmuta em identidade entre duas pessoas, independente de sexo, idade, estado civil, cor da pele, dinheiro na poupança, grau de instrução, religião, ideologia ou nacionalidade. Isso que, a gente sabe, vai rareando a cada dia que passa, mas é só parar e sentir, sem pressa. Quando do lado de fora há tanta pressa em se chegar. Alguns não sabem bem para onde vão, mas vão apressados. Basta você ver quem buzina no sinal de trânsito, não respeita pedestre, vê mendigo com olhar atravessado, fura fila, faz cursos que não levam a nada, vão a tudo que é lugar, riem sempre ou são sempre zangados, não sabem ficar calados e ouvir, têm respostas para tudo e imaginam que a vida é eterna.
Comportamentos assim mostram como a vida é complexa, porque nós, seres humanos, somos tão diferentes apesar de parecidos. Aí que, se alguém afina com você, não perca tempo. É a tal história do cavalo selado que passa na sua frente. Não tenha medo de benquerença. Pessoas seguras de si revelam sentimentos e abrem as comportas de suas reservas, deixando escoar o que podem compartilhar e usufruir. E, preste atenção, benquerença não é só o usufruto do prazer, mas a percepção do outro em suas nuances não faladas, mas reveladas em gestos e silêncios.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/08/2003.

Sem categoria