BIBLIOTECAS E O AMOR – Diário do Nordeste

Recentemente, por uma dessas sortes da vida, participei de uma tarde de conversa com o acadêmico Antonio Olinto, o bibliófilo José Mindlin, o cronista Vicente Serejo e outras pessoas. Falavam de livros, de como esses papéis impressos, encadernados e encapados foram importantes em suas vidas. Deixavam clara a seriedade da ação das bibliotecas públicas no desenvolvimento do saber e da cultura. E ficou explícita a carência de bibliotecas em todo o Brasil. Ao mesmo tempo, se chegou a conclusão de que é um profundo desperdício o fechamento das bibliotecas aos fins-de-semana. Ora, dirão alguns, quem trocará praia, banho de rio, futebol, botecos ou cinema por uma biblioteca? Ocorre que nas bibliotecas não caberiam todas as pessoas. Elas, ainda em pequeno número, dariam apenas para centenas de pessoas e essas mesmas pessoas sairiam de lá, sem dúvida, não com a pele bronzeada, mas com a inteligência aguçada, maior capacidade de análise crítica e descobririam que suas imaginações poderiam lhes transportar a outros mundos, outros sentidos de existir.
O apelo que os bibliófilos, os que amam e cuidam de livros, fazem aos governantes de todos os matizes é que criem mais bibliotecas e as deixem abertas aos sábados, domingos e feriados; divulguem seus horários, locais de funcionamento, programem contações de histórias, palestras e debates sobre autores e suas obras.
A propósito, a maior biblioteca de São Paulo, a Mário de Andrade, que tem um acervo de 3 milhões de obras, realiza, sistematicamente, ciclos de palestras. O último acontecido, foi sobre “A literatura russa pelo prisma do amor”. Assim é que autores clássicos como Dostoiévski, Tchekhov e Tolstói, entre outros, foram revisitados nas suas nuances afetivas, sensualidade e compaixão. Todos, desde os jovens que ainda não escrevem cartas ou e-mails de amor, aos já maduros com suas complexidades existenciais e até os idosos em seus processos pessoais de ajustes de contas com o tempo, são enredados, uns mais, outros menos, pelas teias do amor e nada melhor para guiá-los em suas trilhas afetivas, que um bom livro com paixão, sentimentos, relações de ódio, esperança e gozo. Não são as receitas prontas dos livros de autoajuda as que podem auxiliar nas dores de amores, mas a descoberta ou identificação em histórias que, aparentemente, pouco têm a ver com nossas vidas. E é nessa visão não ortodoxa que as bibliotecas e os livros podem agir como cupidos, encarregando-se do enlevo que precede o encanto dos que sabem estar apaixonados e correspondidos.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/09/2006.

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