Gosto de ler o que escreve Carlos Heitor Cony e acompanho seus artigos e romances há anos. Fala de tudo, especialmente do que nos aflige e sufoca neste país ainda sem destino certo. Critica, mostra erros, dá exemplos e sugere soluções. Diz do seu ateísmo e não esquece o seu tempo de seminário. Se considera um homem antipático, não gostar de muito papo e conversar com muita gente. Criou o seu mundo particular e, nesse mundo, havia um lugar para o amor que dedicou a um cão. Falava dele com um enlevo que enternecia e deixou claro a sua dor quando o seu animal de estimação morreu. Mandou enterrá-lo em cemitério zoológico e se fez triste por um bom tempo. Visita o túmulo do seu cão e, vez por outra, deixa claro que a ferida ainda não cicatrizou.
Há pouco mais de um ano ganhei um cãozinho de presente, pequeno, castanho, peludo, mistura de duas raças estrangeiras e de uma meiguice que aplaca a raiva de recolher o seu cocô pelos cantos que escolhe. É solícito, gosta de brincar com bolas e se põe bípede quando chego do trabalho ou lhe acaricio a cabeça pequena e irrequieta. Agora, no quarto crescente da maturidade, passo a entender o sentimento de Cony e de muitas pessoas que se apegam a um cão ou a um gato. Os animais não falam, não discutem, não criticam, contentam-se com pouco e são extremamente reconhecidos a quaisquer gestos.
Um dia desses assisti a um filme sueco em que um menino foge de casa porque os pais não deixaram que criasse um cão. Fugiu de bicicleta, com o cão dentro de um cesto no bagageiro. Os pais ficaram aflitos e depois de muita procura conseguem localizar o filho e aceitam o cão que rejeitavam. E ai entenderam que o seu filho único precisava de uma companhia leve, como não costumam ser os pais.
Não sei o que dizem psicólogos, psicoterapeutas, psicanalistas e psiquiatras sobre a criação de animais domésticos, mas a minha pouca experiência demonstra que eles ajudam a dar paz às pessoas a quem estimam. É claro que não estou dizendo que um “pet” substitui os relacionamentos humanos, saudáveis, indispensáveis e enriquecedores. Gente precisa de gente, sempre. Mas, tenho consciência de que há uma complementação sutil no lidar com o silêncio, o olhar indecifrável e a alegria manifestada em movimentos do corpo de um pequeno cão. Agora, neste instante em que escrevo, o “Bip”, meu cão de estimação, está aqui dormitando, esperando que eu levante do computador para brincar com ele e, se não o faço, cobra em latidos a minha atenção.
Pode parecer tolo o que escrevo, mas nós precisamos, de vez em quando, ficar tolos, se é que não o somos sempre. Dizia Churchill que “os tolos, às vezes, estão certos”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/08/1999.

