BOB FIELDS

Os que foram estudantes universitários na tumultuada década de 60 recordam estas duas palavras: Bob Fields. Era assim que os universitários, na sua maioria, chamavam o embaixador e ministro Roberto Campos. Essa era uma maneira de chamá-lo de entreguista, vendido aos americanos, calhorda, direitista etc. Ainda não se usava o epíteto neoliberal da forma pejorativa como é feita hoje.
Roberto Campos era a imagem do cão, o vendilhão da pátria e outros adjetivos não menos nobres. Pois não é que, por conta de uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, conheci o dito cujo, então Embaixador do Brasil em Washington. A embaixada oferecera uma recepção aos bolsistas e o próprio nos recebeu de paletó e sua marca registrada, a camisa social listrada com a abotoadura no colarinho como os americanos e ingleses mais tradicionais usam e, obviamente, a gravata.
Lembro bem. Ele era um homem no esplendor do início da maturidade e se fazia acompanhar de SanThiago Dantas, já acometido e em tratamento do câncer que lhe mataria tempos depois.
Campos e Dantas eram, à época, o que de mais expressivo existia de intelectuais exercendo cargos públicos. San Thiago havia dado uma palestra em um congresso da UNE do qual participara e, acidentalmente, o recebi e com ele travei uma ligeira conversa.
Como gancho, voltando à recepção da embaixada, relembrei tal fato a San Thiago e ele, por delicadeza ou com a bonomia própria dos que estão com a sorte selada, disse relembrar.
Formamos então um pequeno grupo e, receosos do seu decantado encanto pessoal, passamos a ouvir a fala mansa e de timbre característico de Roberto Campos. Ele estava solto e falava com sabedoria e conhecimento que, mesmo os seus adversários, sempre souberam reconhecer. De repente, um colega bolsista, Flávio de Sá Bienrrebach, paulista de bigodes retorcidos que viria a ser deputado federal, começa a falar sobre o “imperialismo americano”. Sem alterar a voz e com o ar de ironia que o caracteriza, Roberto Campos perguntou a que tipo de imperialismo Flávio se referia. Flávio tentou explicar. Campos retomou o fio da conversa e disse que conhecia sete formas diferentes de imperialismo e tome história, informação e conhecimento. Quedei-me mudo e absorto, o Flávio colocou a viola no saco e resolvemos mudar de assunto.
Anos depois, em Londres, fui encontrar uma pessoa que o visitara já na condição de embaixador brasileiro na Inglaterra. Essa pessoa falava de suas gentilezas e do seu fino humor. Campos foi eleito, em seguida, deputado federal e senador, por Mato Grosso e Rio de Janeiro. Ouvi muitas de suas palestras. Apesar de não concordar com suas idéias, gostava de ouvi-lo. Na penúltima delas, quando lançou o livro “A Lanterna de Popa”. Anos depois, o ouvi novamente e senti que ele estava se repetindo, não tinha mais nada de novo a dizer, era apenas um octogenário vivendo de sua fama. Retirei-me da sala, antes de concluída sua palestra.
Agora, aos 82 anos, tenta se recuperar de uma lesão cerebral que uma hipoglicemia fez eclodir. Prefiro lembrar dele como o detestado Bob Fields, a quem nunca reverenciei como político, mas respeitei como intelectual. Algumas frases suas são um primor. Vamos a quatro delas: 1. A burrice, no Brasil, tem um passado glorioso e um futuro promissor. 2. O governo não é uma orquestra afinada. É um forró com muitos zabumbeiros. 3. O camelo é um cavalo planejado por um comitê de economistas, nem por isso é um animal inútil. 4. Os elogios incondicionais que estou recebendo estão transformando esta solenidade em meu obituário.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/03/2000.

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