A estatística é uma ciência/arte enganosa. Piada antiga: se você estiver com os pés em uma fornalha e a cabeça em um freezer a média será boa. Números são usados ao prazer das circunstâncias, desde sempre. Ninguém, entretanto, é louco para desconhecer o nosso crescimento. As estatísticas do Censo 2010 do IBGE são confiáveis. O grande problema do Brasil, além da educação precária, da desigualdade absurda e da saúde ruim é a crença de que já “chegamos lá”. Infelizmente, ainda não.
A Itália, em crise declarada, tem renda média de 30 mil dólares por pessoa/ano e uma bem menor desigualdade. O brasileiro tem a renda/média de US$10 mil ano e exulta. O integrante da classe C mora em áreas com saneamento precário, segurança sofrível e espreme-se nos coletivos em viagens demoradas, pilota motos em zig-zag ou usa carros básicos sem condição de segurança. As motos e os autos, ao acabar a garantia, produzem defeitos já pela depreciação programada, péssimas condições das estradas e passam a ser o deleite das oficinas pequenas com preços mais baixos, embora algumas não apresentem qualidade. A par disso, muitos dos componentes vendidos pelas lojas de autopeças são genéricos ou refugos das montadoras. E isso é um detalhe.
Os dados pontuais mostram como estamos distantes do que se propaga. Você sabe que 25% da população brasileira ou 47 milhões de pessoas vivem com apenas 188 reais por mês? O fato, por si só, desmente o mito da riqueza. Em euforia, pessoas de todas as classes abusam do cartão de crédito e financiamentos com parcelamento a perder de vista. 60% da população está endividada e isso gera problemas e mais renda para bancos, lojas, cartórios, Serasa e SPC. Deus dá um jeito, acreditam muitos.
A palavra parcimônia deveria ser mais bem explicada e divulgada neste Brasil de consumo desenfreado. Você não pode e nem deve ser julgado pelo carro, casa, roupa e até pela bebida que ingere, mas pelo compromisso efetivo com a sua vida e o futuro. Dívida é problema sério. A incapacidade do autocontrole destrói vidas promissoras. O seu amanhã agradecerá.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/12/2011

