BRASIL BENTO – Diário do Nordeste

O Papa Bento XVI, o erudito Joseph Ratzinger, chega quarta ao Brasil. Já conseguiu retocar a Basílica de Aparecida, santificar Frei Galvão como o primeiro santo genuinamente brasileiro e conversará com bispos latinos. A propósito: por que tanto santo europeu, poucos santos africanos e quase nenhum da América Latina. Talvez sigam Romanos 3:23: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Por que, há 507 anos os brasileiros sofrem, fazem milagres para sobreviver, vivem sob governos parvos ou truculentos que fariam o Império Romano parecer o Paraíso, cultivam e professam a fé católica e, só agora, mediante ingerência política, é que se reconhece um único santo.
Frei Galvão certamente merece, mas não é possível que, entre milhões de brasileiros, nestes cinco séculos de Brasil, não se entreveja outras pessoas mortas com as condições exigidas pelo Vaticano. Mexendo em meus livros, descubro o Sacrosanctum Concililium, 32: “… não se fará acepção(distinção) de pessoas ou de classes sociais, quer nas ações litúrgicas, quer no ornato externo”. Um santo antigo, Tiago, dizia: “minha fé em Cristo não deve admitir acepção de pessoas. Assim, pois se entrarem em vossa reunião duas pessoas, uma trazendo um anel de ouro, ricamente vestida, e outra pobre, com suas roupas sujas, e derdes mais atenção à rica… não estais fazendo distinções em vosso coração?” Será que os teólogos e doutores do Vaticano estão atentos para isso? Será que nós somos apenas pobres pecadores, embora, por nossa religiosidade, tenhamos aprendido, desde cedo, a ser pagadores de promessas?
A resposta parece estar na palavra Roma. É lá, no pequeno Vaticano, em palácios, que a Igreja toma decisões com burocracia indiferente. Não valem o esforço e a fé de padre vivendo a Amazônia ou dando apoio a desvalidos dos sertões. É preciso milagre, algo sobrenatural. O milagre pode ser também lutar, não ceder a poderosos e ter vida santa, qualificadas por ações. Igreja é, sobretudo, assembleia, reunião que deve reunir iguais, o povo de Deus. Precisamos de mensagens novas e pouco discurso.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/05/2007.

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