O presidente Temer fala, se não me equivoco, com o jargão dos professores, ainda usando paletó e gravata, dos anos 50/60 do Largo de São Francisco, da Faculdade de Direito da USP. Ele, persistindo assim, não conseguirá se comunicar com o povo brasileiro. Parece que a sua concentração em Direito Constitucional não favorece o contato ansioso – e duro – com a imprensa sempre querendo saber o que a autoridade não deseja tornar público.
Todo governo deve possuir porta-voz loquaz, comunicativo e cativante. O governo Temer não tem essa pessoa. Poderia, quem sabe, até tentar Gaudêncio Torquato? Além disso, é preciso uma espécie de equipe de retaguarda formada por ministros e assessores, que pode discordar, com argumentos, do governante. Essa retaguarda deveria fazer o trabalho pesado, de triagem, de ajustes e de enfrentamentos. O presidente Temer está aparecendo demais na televisão, sem que alguns assuntos sejam relevantes para uma coletiva de um Chefe de Estado.
Outro ponto fundamental é a escolha de ministros, mesmo sendo um “governo de coalização”. Os candidatos a esses cargos precisam ser desnudados antes da escolha. Mal comparando, seria, como se dizia no passado, saber a sua “folha corrida na polícia”. Depois, sendo mais moderno, verificar os simples SPC e Serasa. A penúltima etapa seria obter cópia da declaração na Receita Federal, certidões fiscais, cíveis e criminais dele e de seu cônjuge. Sendo atual ou informatizado, procurar olhar nas famosas e infamantes redes sociais, o que a pessoa diz de si própria, a sua conversa com os seus “seguidores”. É claro que há que se olhar a outra versão, a dos “perseguidores”. A vida pública possui essa dicotomia: uns amam, outros odeiam.
Antes de qualquer futuro ministro falar com o presidente deveria ser sabatinado pela equipe de retaguarda. Nessa sabatina avaliar-se-ia (créditos ao presidente) a capacidade de comunicação do candidato, algum conhecimento da área onde vai atuar e o grau de empatia com a equipe. Se esses mínimos cuidados tivessem sido feitos não haveria tanto atropelo. Sei disso, por experiência própria. Desconfie de aparências e lero-lero.
Seis ministros em seis meses já caíram. Em cada queda, uma pequena, média ou grande crise. Governo não pode ficar se explicando. Precisa agir rápido, antecipar-se aos fatos. Não está acontecendo isso e a imprensa, sempre vigilante, destrói as informações toscas recebidas.
Torço pelo Brasil e não acho prudente esse clima de novo “impeachment”. O Brasil precisa ficar de olho ao que está acontecendo no mundo. Estamos vivendo era perigosa. Trump é ainda incógnita. Hillary ameaça pedir recontagem de votos. O Oriente Médio recebe armas de todos os lados, inclusive, as compradas do Brasil. A Europa dá guinada para a direita e a Inglaterra tenta se isolar. A China se espraia pelo mundo real.
Não podemos praticar autofagia, somos os que elegem, os que pagam impostos e os que sonegam. Os que aplaudem e os que xingam. Há baderna incitada. A hora é de exame. Resolver as pendências, sem tanta retórica, sem compadrio partidário e sem demonizar a Justiça. Ainda bem que “há juízes em Berlim”. Como disse, nesta semana, a Ministra Cármen Lúcia: “Juiz sem independência não é juiz. É carimbador de despachos”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/12/2016.

