O Brasil estava se preocupando demais com o possível acesso ao Conselho de Segurança da ONU (a China negou apoio) e as crises do mundo muçulmano, especialmente, o Irã. O governo esquecia a China, nosso segundo parceiro comercial, graças a negócios privados. Não que as crises do mundo muçulmano não devam preocupar.
A China é país absolutamente diferente de tudo o que já vi. Estive na Ásia duas vezes. Recentemente, andei pela nova China. Procurei ver o que nos mostram e o que sempre estavam atrás de muros. Lembram os muros de entrada/saídas onde toureiros se protegem dos touros enfurecidos? Pois micro-casas/favelas ficam atrás desses muros. Alguns deles têm paisagismo moderno, mas da “passagem do toureiro” para a parte interna há brutal diferença. Existe pobreza. A diferença é que o jovem chinês tem mais ambição que qualquer rapaz do ocidente. Ele sabe que só há duas saídas para o sucesso: conhecimento e trabalho. Assim, estuda para valer. Moureja, sem descanso. Por outro lado, há os chineses já no patamar dos ricos, embora morem, ainda, em casas e apartamentos pequenos para os padrões ocidentais. Mudaram hábitos, vestem roupas ocidentais e até degustam vinho. Em 2010, a China foi a maior consumidora do mundo de vinho Bordeaux.
Os ricos de lá não ficam a dever nada aos do mundo ocidental. Casamentos são em hotéis. Há carrões, limusines e restaurantes luxuosos em hotéis, ruas e shopping centers. Você pode comprar artigos Louis Vuitton originais ou optar por imitações em mercados populares. Dizia, no princípio, que devemos nos preocupar com a China.
Ela tem tentáculos na África. Nada de ideologia ou guerra. Exércitos de empresas chinesas investem em todas as áreas industriais e vão, pouco a pouco, sendo donos da economia dos países africanos. E não só na África.
A viagem da Presidente Dilma é promessa cautelosa. Ela e seus assessores devem ter lido a “Arte da Guerra”, de Lao-Tzu e os “Anelectos”, de Confúcio. Esses livros dão ideia de como a filosofia “Tao” serve até hoje ao pragmatismo e a demora chinesa para decidir. Terry Gou, da Foxconn, dos US$ 12 bi de investimento no Brasil, não é chinês. É de Taiwan.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/04/2011

