Não houve grande repercussão na mídia americana dessa última ida de Lula aos USA. Na Casa Branca: conversas, risos, apertos de mãos, fotos e promessas adiadas, pelo menos, para 02 de abril, em Londres, na reunião do G-20 (dos 20 países ricos e mais remediados). Primeiro, é preciso dizer que a reunião com Obama foi sábado passado, 14, das 11 às 12 horas. Sem convite para almoço. Estava marcada para 17, terça, mas esse era o dia de São Patrício (o que denunciou a crueldade dos britânicos), celebrado pelos irlandeses-americanos e Obama priorizou o festejo. Antecipou-se, então, o contato com o ‘Brazil’. Parte da reunião, cerca de 40 minutos, foi de apresentações e discussões entre os grupos de cada país. Depois, Lula e Obama conversaram, a sós, por 20 minutos, com tradutores. O do Lula foi o Embaixador Celso Amorim, deu para ver. Presidentes não estão a sós com a presença de tradutores. Mas é assim que se faz na diplomacia. Todas as conversas do presidente dos Estados Unidos são, de regra, gravadas. Detalhe: nenhum novo interlocutor americano do poderoso Conselho de Segurança Nacional (NSC) ou Embaixador foi ainda designado para a América Latina. Todos do governo Bush permanecem. Não há, portanto, equipe de Obama para estudar e acompanhar os nossos problemas. A prioridade é a crise econômica ianque e do mundo e, a realidade mostra que a América Latina fica para depois. Só em abril, com o Encontro das Américas em Trinidad e Tobago, terra do Nobel de Literatura V.S. Naispaul, é que Obama dirá quem, em seu nome, indicará para discutir com os países do Hemisfério Sul. Alguns cientistas políticos e economistas dizem que o Brasil, com s ou z, não pode ser tratado mais como país excêntrico. Participa do G-20, luta, há anos, por um lugar no Conselho de Segurança da ONU e o faz concorrendo com Alemanha, Japão, Índia e África do Sul, entre outros. Temos matriz energética limpa, bancos vivos, contas externas saneadas, biodiversidade, sem dependência comercial a nenhum mercado e integramos o Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), corruptela de brick, tijolo. Sabemos que essa palavra bric/brick foi criada no pressuposto de que os tijolos são importantes para a reconstrução dos novos pilares do mundo. Precisamos, dizem, deixar de aceitar convite aos sábados pela manhã e não ficarmos, pelo menos, para o almoço. Mas, como se fala por lá: não há almoço grátis.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/03/2009.

