O Espaço Cultural Unifor apresentou, de março a abril passados, duas gratas e distintas exposições. No Anexo, “Paris la Nuit”, de Julius Halasz, artisticamente Brassaï; no 2º. piso, a “Coleção Brasiliana Itaú”. Paris à Noite reúne coletânea de fotos, em preto e branco, da vida noturna da cidade, nos primeiros trinta anos do século passado. São quase detalhes, usando foco gris, envolvendo gente do povo, ambientes e situações do dia-a-dia não tão charmoso da urbe que atraia, à época, artistas e escritores de muitos países. Brassaï é húngaro. Há um casal a se repetir em duas das 98 fotografias. Ficam em duplo, por conta de velho espelho a captar suas imagens, deixando à mostra copos, cigarros, esmaltes das unhas da mulher etc. Em uma, o homem está com boina, na outra resplandece sua cabeleira negra. Enquanto isso, uma prosaica carroça – como as dos catadores de lixo no atual Brasil – realça quinquilharias amontoadas. O lado sensível do artista apreende efeitos singulares ao apertar o obturador. Vi e revi partes da cidade que conheço desde 1965. É claro que a Paris de hoje, afora os monumentos públicos, pouco tem a haver com a arte do húngaro Brassaï, eternizadas em exposições, agitando a sensibilidade dos milhares de pessoas que, nestes três meses, passaram pelo acolhedor, mas neutro – como deve ser – ambiente que as recebeu.
Rica, multifária e perpassando o Brasil desde a chegada de Cabral, a Brasiliana Itaú reúne objetos, pinturas diversas, entre outras, de Von Martius, Debret e Rugendas. Mescla cartas náuticas, livros raros, floresta, fauna, nativos, cidades, governantes, escritores como Alencar e Rachel e até o inventor Santos Dumont, com o seu 14-Bis. Todos disputam espaço. Essa coleção múltipla parece ser o tardio, válido e verdadeiro encontro do banqueiro Olavo Setúbal com a arte, na juventude de sua maturidade. E o fez com pressa e destemor. Histórica e complexa. Por essas razões talvez não possa ser absorvida na totalidade pelo olhar jovem que, aflito, admirava “tanta coisa bonita”. As visitas gratuitas – guiadas, de estudantes do interior às mostras periódicas da Unifor- são uma lição à cultura e às artes do Estado. Parabéns.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/05/2011

