BRASYDNEY

De forma vergonhosa, o Brasil terminou a sua participação nas Olimpíadas de Sydney no 51º lugar (ranking de produtividade). Ficamos atrás do México, Cuba, Uruguai, Belarus, Bahamas, Letônia, Azerbaijão e Moldova, entre outros. Há denúncias de corrupção, recebimento de dinheiro de patrocinadores por baixo do pano, atletas “amarelando” e “sem amor à pátria” e poucas, pouquíssimas (12) medalhas de prata (6) e bronze (6). Necas de ouro. Parece que tudo deu errado e deu, na verdade.
As televisões e os grandes jornais foram, como sempre, os grandes beneficiados. Venderam a idéia – e caríssimas cotas de patrocínio – de que o Brasil ganharia isso e aquilo e fomentaram uma empolgação e expectativas nacionais. Nem uma coisa, nem outra. A diferença de fuso horário, virava de ponta cabeça a nossa idéia de dia e noite. Por outro lado, a divulgação à exaustão com narradores bobos e monótonos, depois de um certo tempo, causava um enfado imenso. A patriotada das redes brasileiras de televisão chegava a desfaçatez de divulgar apenas os cinco primeiros países colocados e o pífio desempenho nacional.
Os jogos Olímpicos, de há muito, deixaram de ser somente uma competição esportiva. São um grande negócio que tira da magia do esporte bons resultados financeiros e de marketing para o país sede. No caso específico de Sydney, os custos foram da ordem de um bilhão e duzentos e oitenta milhões de dólares (muito menos do que o Brasil perdeu com os bancos Marka e FonteCindam). Esse dinheiro foi gasto em recuperação de áreas, construção de estádios, remodelação da cidade, passagens aéreas para todas as delegações (sob o argumento de que a Austrália é muito longe), um grande investimento em marketing, construção de apartamentos-alojamentos que, em seguida, serão vendidos à população local etc. Mas, o dinheiro não saiu apenas dos cofres públicos australianos. Grandes patrocinadores como a Coca-Cola, a BHP (que atua em mineração), a Westerfield (imobiliária) e a Testra (telecomunicações) bancaram parte da festa. A Austrália, distante, passa a fazer parte do imaginário de quantos viram os jogos e as festas de abertura e encerramento. Isso dá retorno imediato e no futuro.
Penso que está na hora do Brasil se candidatar, de verdade, sem carioquice, a ser sede de uma futura Olimpíada. Seria uma grande jogada de marketing, um processo de desenvolvimento forçado da região escolhida, melhoria na segurança pública, trazer o foco das comunicações mundiais para o nosso país e, quem sabe, um pouco mais de medalhas. Temos charme, talento e muitas cidades a escolher. Falta apenas gente séria para tomar a iniciativa. O Comitê Olímpico Brasileiro deve ser mudado, de ponta a ponta. As escolas e as universidades precisam voltar a estimular a prática de esportes e nós, com certeza, deixarmos de ser bobos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/10/2000.

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