Não quero ter na consciência o peso da indiferença ou da omissão. Os canais de TV estão fazendo da guerra do Golfo Pérsico um ato vil, sádico, desumano e tornando as pessoas insensíveis ao absurdo da agressão mútua e da morte descabida. Pintar Saddam Hussein e George Bush de tiranos ou defensores ou o quer que seja, é um filme tão ultrapassado, de retórica antiga, consistente como um pudim e defensável como uma freira fazendo ´strip-tease´.
Nenhum analista político americano ou iraquiano teve a coragem de ser explícito: a guerra é um emaranhado de mentiras, de embustes, de interesses econômicos contrariados e a pretensa defesa ou conquista de um emirado do Oriente Médio – que há pouco mais de trinta anos era parte de um protetorado britânico – não dá a ninguém o direito de fazer o que está sendo feito.
O Iraque brigou oito anos com o Irã e ninguém se meteu. Até armas químicas foram usadas. Os Estados Unidos invadiram Granada e o Panamá e a ONU ficou calada. A Rússia quase dizimou a Letônia e nada. A Letônia, o Panamá e Granada não têm petróleo. O Irã era inimigo dos Estados Unidos e o Iraque – até recentemente – seu aliado. Estes são os fatos. Não consigo entender a razão pela qual os canais de TV, inclusive a poderosa CNN americana, se rendem – ou se vendem? – a um ilusionismo digno de Houdini. Esse canais são dirigidos por pessoas como nós e se rendem a uma ignóbil propaganda, a mesma utilizada por Goebbels na Alemanha nazista. O elevado índice de aceitação (79%) por parte da opinião pública americana da posição adotada por Bush e o gen. Collin Powell, o primeiro negro a comandar uma guerra nos Estados Unidos, reflete a maciça propaganda mostrando que cabe aos Estados Unidos defender o mundo. Para defender o mundo, os Estados Unidos estão com um contingente onde a maioria é constituída pelas minorias raciais. Basta dizer que, segundo o jornal New York Times de 25 de janeiro último, 24,6% do total de soldados é de cor preta. Outro tanto é constituído de latinos, eslavos, italianos etc. A parcela WASP (anglo-saxônica, branca e protestante) é menos que 50% do total de americanos envolvidos no conflito.
A humanidade sofre com a fome do terceiro mundo, onde a África e a América Latina são contrapontos na orgia de mísseis e tecnologias que devoram, por dia, a dívida externa da Bolívia. Os cientistas do primeiro mundo dão uma demonstração patente de ausência de humanismo, de falta de preocupação de males como a fome, o câncer, a Aids e as doenças endêmicas resultantes de atraso e do descaso de uma comunidade de seres privilegiados e alheados da realidade social.
Ninguém pode se orgulhar de uma guerra com data marcada, correspondentes a postos como se fosse uma olimpíada, bilhões de dólares em equipamentos e em pessoal para serem dizimados em uma contabilidade onde o registro de uma façanha destruidora é motivo de uma edição extra por locutores com emoções orgásticas citando número de mortos e feridos. Para concluir, só um detalhe: este artigo foi escrito e publicado neste Diário no dia 07 de fevereiro de 1991. Filme em reprise?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/03/2003.

