Olá, Antônio Torres, estou por aqui. Assim começou o telefonema com esse grande escritor brasileiro, autor de 11 romances, detentor, entre outros, do Prêmio Machado de Assis, maior glória concedida pela Academia Brasileira de Letras. Marcamos para andar juntos no dia seguinte. Na hora certa, desço e ele já está lá. Somos nordestinos. Ele, do Junco ou Alagoinhas, Bahia. Eu, desta Fortaleza de tantas faces. Entretanto, estamos ambos ainda aprendendo a ser cidadãos do mundo e a andar por aí afora. Atravessamos juntos a avenida vazia de carros e nos pusemos em marcha. Céleres senhores de tênis e calções em busca do sol dessa manhã escancarada. Na verdade, estou com um “short” de pijama, pois não encontrei o calção. Pergunto a ele se alguém vai desconfiar. Ele diz: nada, parece até calção mesmo. Fazemos uma curva e a praia além já é outra, sendo a mesma. O sol bate no mar e o reflexo nos encadeia um pouco. Ou seriam os corpos jovens semi-desnudos que passam ao lado, parecendo voar, mas não mudam a nossa prosa?
Estamos, acidentalmente, passando em revista a história de cada um, antes e depois do Plano Collor. Temos lembranças e lambanças a contar do que sofremos com o ‘cinquentinha’ que amanheceu disponível naquele dia aziago. E, a cada passo, vamos nos mostrando por inteiro, como devem fazer os amigos e digo da felicidade de tê-lo visto na capa de O Globo como emérito escritor que é, julgando os que almejam ser ou já o são.
Suados, cruzamos, sentido contrário, a avenida e lá vamos nos enfurnar, do jeito que estávamos, em uma livraria. Entramos em território dele. Um amor de Café que leva o seu nome. Com balcão, mesas e cadeiras decorados com esmero, uma carinhosa logomarca feita pelo Ziraldo e placa metálica registrando a data de sua abertura, no ano de 2003. Deixamos que partículas de H20 diminuam o desgaste das andanças quilométricas e ele, não contente apenas com o reencontro, mima-me com seu último livro de crônicas, “Sobre Pessoas”. Lisonjeado, começo a folheá-lo.
Vejo, alegre, ser o livro dedicado a umas poucas pessoas. Entre elas,
Carlos Augusto Viana, Laéria Fontenele e Sérgio Braga. Agora, já estamos tomando o café da manhã, repondo, com sobra, calorias perdidas. Conversamos até sobre Machado de Assis e Capistrano de Abreu, enquanto pães, queijo e sucos juntam-se à negritude do café que me energiza para tentar, sem êxito, falar com Sérgio Braga e Carlos Augusto. Finda o café, o sol, já zenital, nos remete de volta à praia e à água de coco, enquanto procuro os amigos citados. Por milagre, Carlos Augusto atende com voz de barítono matutino, trocamos prosa e repasso o celular para o Antônio Torres, sem esquecer de olhar o Drummond em bronze, sentado, que parece dizer: “Lutar com a palavra é a luta mais vã, no entanto, lutamos mal rompe a manhã”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/12/2007.

