CAMINHOS

Tenho recebido alguns convites de formatura das várias universidades que hoje pululam por aí. Todos muito arrumados. Feitos para durar. Há mensagens (aos pais, mestres, amigos, amores, ausentes etc.) imagens, fotos sorridentes, papel de qualidade, diagramações cuidadas e espaços para oferecimentos. Isso mostra, por um lado, o zelo dos formandos. Por outro, salvo engano, a vaidade de parecer dizer a alguém: ´o meu é mais bonito que o seu´. Pois o público que vai a essas solenidades é constituído, como todos sabem, dos pais, namorados, amigos e os antigos colegas de colégio que seguiram ou tentaram carreira diferente. Estarei errado?
Além de ter recebido vários, alguém teve a coragem de me pedir idéias sobre mais um convite. Queriam fazer algo diferente. É provável que vá estragar a surpresa, mas resolvi sugerir a abertura com Patativa do Assaré: ´É um me chama para cá, me leva para lá, diploma, festejo, uma louvação danada´. Sugeri também uma reflexão de Rainer Maria Rilke: ´Você está olhando para fora, e é justamente isso o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou julgar. Ninguém. Só há um caminho: procure entrar em você mesmo´
Recomendei ainda citações de Einstein, Camus, Emerson, Cantares (8:6-7), mas fiquei encantado com uma, especialmente do quase esquecido Carlos Castañeda, tão lido pelos jovens contestadores dos anos 70. Diz ele: ´Cada caminho é apenas um entre milhões. Se você acha que não deve segui-lo, não precisa ir adiante. O fato de abandoná-lo não pode agredir você, nem pode ofender ninguém. A sua decisão de seguir ou abandonar um caminho deve ser livre de medo ou ambição. Eu lhe aviso: examine cada caminho com atenção e propósito. Experimente-o tantas vezes quanto julgar necessário. E pergunte a você mesmo: esse caminho tem coração? Se tiver, o caminho é bom. Se não tiver, não tem utilidade´. Depois que repassei o material, li e reli. Descobri que não só os formandos com as euforias naturais, mas os pais, os amigos, os namorados e os mestres deveriam meditar sobre os seus próprios caminhos, tão difíceis nesta época em que as pessoas ficam cheias das próprias certezas por não terem coragem de abandonar comportamento, vertebrarem-se, que não agregam muita felicidade e isolam entendimentos.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/02/2003.

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