Um dia desses pediram-me para escrever algo sobre a cidade de Fortaleza. Disseram-me que os visitantes, a quem a mensagem era dirigida, não sabiam nada da cidade e seria preciso iniciá-los e orientá-los. Vejam o que escrevi.
Chegue manso, sem alardes, sem pompas. Fortaleza, esta cidade tão altaneira quanto seu nome e tão leve quanto a sua brisa, não combina com paletó e gravata ou vestidos de noite. Ela pede descontração e sorriso. Sinta o sol radiante, a brisa gostosa e o povo singular que alia compromisso com o futuro, sem perder as raízes do seu passado, mas não esquece de viver o hoje.
Como se fosse mágica, Fortaleza têm multifacetadas caras, conforme a hora e o lugar, pois, sendo mulher charmosa, é vaidosa. Mas, em nenhuma face, se vê sinal algum de envelhecimento. Possui corpo vivo, gracioso, radioso e o que mais se sente é o seu pulsar constante beirando e beijando o mar, das margens dos rios Ceará até o Cocó. Suas águas mornas, uma mescla de verde marinho e azul escuro, batem na praia em nuvens dançantes de algodão tal qual movimentos de sístole e diástole.
Faceira, maneirosa, trejeitosa e de contornos indefinidos, vai quase forçá-lo a fotografá-la, mas a emoção pode ser tão grande que o filme chega a velar e perder os múltiplos focos, pois, como se você usasse uma velha máquina fotográfica, aperta o obturador no instante errado.
Não tenha pressa. Dá tempo de ver a antiga Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, a Praça do Ferreira, o Teatro José de Alencar, a Praia de Iracema com o pôr-do-sol da Ponte Metálica e os bares e restaurantes à noite, a Catedral, o Centro Dragão do Mar, os mercados Central e dos Pinhões, a feirinha na Av. Beira Mar, as jangadas do Mucuripe, comer pratos típicos em restaurantes simples e bons ou regalar-se em sofisticados lugares, afinal a conta é sua.
Ande a esmo, fale com qualquer um, todos são gente igual a você, nem melhor, nem pior, só mudam o timbre da voz, o lugar onde moram e a forma como veem o mundo.
Tendo tempo, viaje pelos arredores. Praias para todos os lados e gostos e, por pouco mais ou quase nada, você presenteia seus olhos com dunas e falésias e ouve histórias brejeiras.
Não é pretensão e não se assuste. Você vai se apaixonar por Fortaleza. Ela é assim mesmo, encantadora e perturbadora. Ao voltar à sua cidade poderá sentir suores, o coração bater mais forte e as mãos frias. Não pense em consultar médico. Preocupe não. Você apenas contraiu o vírus de amar Fortaleza. Só existe um remédio: voltar sempre, pois ela pode ser o antídoto para os seus males.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/02/2002.

