Quando você for às compras lembre-se como o dinheiro chegou às suas mãos. Se foi dado por alguém, que reabastece sempre, não tenha dó. Mande brasa. Se for suado, contado e fruto do seu trabalho, vá com calma. Procure fazer uma lista do que realmente precisa. O impulso é, muitas vezes, maior que a razão. Lembre: grife não produz, terceiriza e cola etiquetas.
Agora, quando for comprar comida, frutas e verduras, veja se não está dentro de uma multinacional atrás de nome brasileiro. Acontece assim: um português/árabe/judeu/nordestino chega à cidade grande e monta uma mercearia. Moureja de sol a sol. O negócio prospera, o empreendedor aumenta a área e, tempo depois, vira mercadinho, supermercado e loja de departamentos.
O mourejador cansado, enfarta. Morre no hospital luxuoso. Filhos choram. Uns menos que outros. Passa o luto. Herdeiros fundam uma sociedade anônima e resolvem abrir o capital. Há anúncios, reportagem em TVs e os netos chegam à festa em carrões e cabelos vaselinados. O barco vai singrando e as famílias aumentam. Há filhos, noras, genros, netos, mulheres e maridos dos netos, uns com ciúmes dos outros. Brigam e ficam distantes.
Uma assembleia geral extraordinária é convocada para ouvir proposta de grupo estrangeiro. A cobiça aumenta e, após discussões, ouve-se a firma de consultoria contratada por hora. Ela diz: é hora de vender. Os estranjas assumem o controle e vocês recebem ações e parte em dinheiro. Exultam. O português/árabe/judeu/nordestino revira no túmulo que está com capim alto e luminárias enferrujadas.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/06/2012

